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Português foi para Miami para não denunciar desvio bancário de 2 milhões

por

Amadeu Araújo, Viseu

Direitos reservados (imagem)  

Allan Shariff e três bancários. Terão sido eles quem tramou Paulo Almeida, o português que foi de Fornos de Algodres a Miami para roubar um banco sem saber falar inglês. Um milhões de euros em que o empresário nunca chegou a tocar estão no centro desta história insólita: o dinheiro resultava da hipoteca do seu matadouro, mas Shariff e os bancários terão decidido dividi-lo. Quando a investigação levada a cabo pela Caixa Geral de Depósitos teve início, terão orquestrado uma forma de o impedir de ir a tribunal denunciá-los. O roubo do Commercial Bank of Florida foi a armadilha escolhida.

As fraudes do grupo envolvem, porém, valores superiores, totalizando, ao que o DN apurou, pelo menos dois milhões de euros. "O Paulo Almeida estava cheio de dívidas porque não recebeu o dinheiro do banco", afirma António Paulo, amigo do industrial de carnes. A falta desse dinheiro e "o hábito de grandes gastos nos tempos áureos do matadouro" terão ditado a desgraça de Paulo, hoje detido em Miami a aguardar julgamento. "Ele era um artista com algumas dívidas, mas gostava de ter dinheiro e era facilmente convencido", conta. E deixou-se enganar, "a conselho do Shariff, um carola que até os americanos enganou, e do gerente do banco que lhe ia pondo algum dinheiro na mão", afirma.

O desespero das dívidas e o facto de ser uma pessoa "a quem se dá a volta rapidamente", fizeram com que Allan Shariff, um luso-americano de 27 anos, o convencesse de que "ia à América buscar dinheiro de um contacto que o americano tinha lá num banco", conclui o amigo.

Só assim se compreende que Paulo Almeida tenha embarcado na aventura: "Então um homem que frequenta a boite e que é batido na noite não via logo que para assaltar um banco é preciso uma arma?". Terá sido aqui que Shariff traiu o amigo. "Quando ele lhe telefonou, o americano lá terá dito que aquilo era um assalto. Olhe, saiu-se bem, livrou-se de uma testemunha incómoda", conclui António Paulo.

Sabe-se também que no momento da detenção o industrial de carnes tinha em seu poder 4800 dólares. "O suficiente para 15 dias de América sem problemas", afirma José Francisco, um residente de Vale da Ribeira que esteve "muito tempo na América, como muita gente daqui".

As relações entre Paulo e dois bancos, cujos processos correm em tribunal estarão, então, na origem da história. Ao que o DN soube junto de um responsável bancário em Fornos de Algodres, "o banco em causa é a Caixa Geral de Depósitos, que está a apurar internamente se houve algum ilícito e que preventivamente afastou um gerente e dois directores regionais de uma das suas agências porque não conseguiram explicar um crédito mal parado de dois milhões de euros".

Segundo esta fonte, "Paulo Almeida servia apenas para cortina enquanto eles iam realizando os seus negócios e dividindo a massa". Tanto assim é que entre os inúmeros credores de Paulo Almeida se conta "um concessionário automóvel que ficou sem ver tostão porque o banco não efectuou os pagamentos acordados", vai adiantando o bancário.

E o receio de que Paulo Almeida contasse em tribunal a sua versão dos factos, "incriminando algum destes quatro personagens [Shariff ou os três bancários] levou a que tivessem decidido dar-lhe um sumiço", conclui a mesma fonte.

Paulo e Allan Shariff viviam em duas localidades próximas, nos distritos de Viseu e da Guarda: Casal Vasco, no concelho de Fornos de Algodres, e Torre de Tavares, no concelho de Mangualde. Eram vistos como bons amigos. Descrito como "senhor de uma cabecinha para os computadores capaz de localizar e manobrar qualquer conta", Shariff terá sido o cérebro deste assalto bizarro que, com o avançar da investigação, revela aspectos mais bizarros.


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