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Pina Bausch cria a partir da experiência do desconhecido

por

Ana Marques Gastão

Paulo Spranger (imagem)  

Não era tarde de chuva, mas de sol, vento corrido. Pina Bausch ficou sentada, quase só, na mesa do foyer do Teatro Camões, fumando cigarro após cigarro. Para quem se sentou no chão para a escutar, e foram muitos, o que permaneceu foi o silêncio, as pausas no discurso, a voz, pausada, e a figura esguia, recortada pelo rio de que não se esqueceu em Masurca Fogo, peça que fez sobre Lisboa e apresentou, em 1998, no Centro Cultural de Belém.

Poucos gestos, apenas uma ondulação, uma suave e mínima inclinação do corpo para a melancolia, corpo de criança que amarraram a um poste obrigada a falar: "Façam-me perguntas, façam-me perguntas, não sei falar sobre a minha obra." Mónica Guerreiro moderou e ajudou à conversa, introduzindo linhas de força no diálogo, que acabou por fluir sem espaço para muitas questões por parte do público.

De novo, em Lisboa, a coreógrafa alemã traz desta vez um outro espectáculo, no âmbito do 30º aniversário da Companhia Nacional de Bailado, e nos seus 30 anos de direcção artística do Tanztheater Wup- pertal. For the Children of Yesterday, Today and Tomorrow (2002), sobre o qual não falou, é apresentado amanhã e dias 6 e 7, às 21.00, e a 8, às 16.00 (os bilhetes estão esgotados). Direcção e coreografia de sua autoria; cenografia de Peter Pabst; figurinos de Marion Cito; colaboração musical de Matthias Burkert e Andreas Eisenschneider.

Fantasia

Trata-se de existir. Esse o propósito dos espectáculos de Pina (n. 1940). Alguns afirmaram-se como símbolo de uma Europa em decomposição e da incapacidade de evolução do ser humano, bloqueado na sua própria incomunicabilidade; outros, exprimem dor e fantasia, riem de prazer, expressam aflição e sonho, complexos e feridas, são densos e trágicos, hilariantes e compulsivos, únicos, porque, na sua ambiguidade, se alimentam do indizível.

Por isso, quando lhe perguntam que papel terá sido o seu, enquanto criadora, nestas últimas décadas, responde, empurrando a custo o silêncio para longe: "Talvez eu tivesse trazido a capacidade de fantasiar, de interrogar." E fê-lo como? Ela mesmo o diz, voz funda de tafetá, à qual junta umas vassouradas de humor que desconcerta a plateia, sobretudo quando diz que se estreou numa peça em que abanava um sultão: "Não sei por onde vou, o que interessa é o que sinto, sentimos. Estou tão contente por não ter de teorizar."

Conta ainda que, em tempos, lia as críticas. Muitas trouxeram-lhe alegria e a possibilidade de enquadrar o seu trabalho, mas pensa, por outro lado, que em excesso os elogios tornam-se contraproducentes, como com os seus bailarinos.

Ri para dentro, rosto um tanto ou quanto ascético, abstracto, ergue as mãos como quem dança: "Os bailarinos queixam-se de eu não lhes dizer que são maravilhosos, mas depois querem fazer melhor, e melhor pode ser de mais, correndo-se o risco de se quebrar a inocência."

E é essa mesma intocabilidade que quer manter no diálogo com as cidades sobre as quais tem coreografado e perante as quais reconhece saber tão pouco. "O que importa, afinal, são os sentimentos", palavra que diz tão pouco porque nela não vê essa outra coisa a que poderia chamar compreensão. Feitas de quê as obras? "Do pormenor" e do "gosto pela experiência do desconhecido".


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