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Fernanda Câncio e Isaltina Padrão
Rodrigo Cabrita (foto)
É único. O outdoor ontem colocado no Marquês de Pombal custou, entre fabrico e colocação, 1750 euro e não havia dinheiro para mais. Quem o garante é o homem do cartaz, José Pinto Coelho, o líder do Partido Nacional Renovador (PNR). "Foi feito com as dádivas dos militantes, o PNR não é um partido rico. Escolhemos um sítio nevrálgico de Lisboa, com muita visibilidade, e um tema que é grave e sobre o qual mais nenhum partido em Portugal tem a coragem de pôr o dedo na ferida. É que estamos a ser invadidos. E estamos cheios."
A solução será então, como sugere o avião com a legenda "façam boa viagem", a expulsão. É isso, admite o líder do PNR, o que o cartaz diz, mas não é isso que o partido quer. "É uma mensagem forte, temos consciência disso, mas é como com os títulos dos jornais, que às vezes vão um bocado além do que está na notícia. Os imigrantes que estão cá por bem têm consciência de que aquilo não é com eles."
Há, então, os imigrantes bons e os maus. "Quem deverá ser expulso? Os marginais, os ilegais, os indigentes. Os que vêm para cá viver de subsídios". Era complicado, explica Pinto Coelho, explicar essa distinção em cartaz. Assim ficou um cartaz contra a imigração e os imigrantes em geral, mesmo se a intenção, garante , não é "tratar mal os imigrantes". É mais tratá-los "como estrangeiros". "Somos contra a nacionalidade dada burocraticamente. Portugal é para os portugueses." Sendo os portugueses, define, "os filhos dos portugueses". Quantas gerações para estabelecer a destrinça? "Ora, isso tem de ser legislado. Umas cinco, por exemplo."
Convencido de que "há muitos portugueses que pensam como nós mas não nos conhecem, que são nacionalistas como nós", Pinto Coelho crê que existe "um espaço enorme para o PNR conquistar". E dá como indicativo "a votação no Salazar no concurso da RTP Os Grandes Portugueses". Na sua interpretação, o ditador ganhou, com 41% dos 159 mil "votos" validados, "porque é a antítese da actualidade. É no fundo uma bofetada ao regime saído do 25 de Abril.
"Desespero ultra-nacionalista"
Rui Marques, o alto comissário para a Migração e Minorias Étnicas (ACIME), desconsidera o gesto. "A estratégia dos partidos da extrema direita é sempre ganharem palco a partir das provocações que fazem. É preciso não cair na armadilha. A nossa postura é sempre colocá-los na sua devida proporção, a de 10 mil votos e qualquer coisa."
Certo porém é que este único outdoor do PNR determinou ao ACIME a convocação, para hoje, de uma reunião da comissão permanente da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial. E ao ministro da tutela, Pedro Silva Pereira, "vivo repúdio e indignação". Admitindo que o Governo está a estudar "o enquadramento jurídico" (nomeadamente a existência de um crime enquadrado no artigo 240 do Código Penal), Silva Pereira qualifica o outdoor como "uma acção lamentável, uma tentativa para abalar artificialmente o ambiente pacífico que marca a integração dos imigrantes na sociedade portuguesa e, sobretudo, uma enorme injustiça para os imigrantes que estão entre nós e contribuem para o desenvolvimento do país. Que são pessoas com direitos iguais aos dos emigrantes portugueses no mundo."
O presidente da Comissão Parlamentar de Direitos, Liberdades e Garantias, Osvaldo Castro, acompanha o ministro na indignação. "Só falta dizer 'Vão para a vossa terra'. Isto ainda por cima no Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades." Considerando a mensagem do cartaz "uma violação flagrante da Constituição, porque faz apelo a motivações raciais e viola o princípio da igualdade", vê-a como resultado de "um certo desespero de uma minoria ultranacionalista, para não lhe chamar coisa mais grave, perante o facto de se estar a finalizar um diploma sobre imigração que é o contrário dessa ideia das portas fechadas".
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