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por
Helena Tecedeiro
Leonardo Negrão (imagem)
Harlan Ullman
Perito militar americano
Especialista em Segurança e Política Externa, é autor, com James Wade, da doutrina "Choque e Pavor" que deu nome à operação dos EUA no Iraque
Conselheiro do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais
Quatro anos após a invasão, o Iraque vive uma guerra civil com várias fontes de violência, diz ao DN o perito americano em Segurança Harlan Ullman. De passagem por Lisboa, o autor da doutrina "Choque e Pavor", que deu nome à operação dos EUA no Iraque, garante que a Casa Branca não usou a sua estratégia, apenas "o slogan".
A sua doutrina "Choque e Pavor" deu o nome à operação dos EUA no Iraque, em 2003. Apesar disso, é um crítico feroz da forma como Washington actuou naquele país. Porquê?
A noção de choque e pavor não é a que foi usada no Iraque. Trata-se de controlar a vontade e percepção do adversário, levando-o a fazer o que queremos e deixar de fazer o que não queremos. Não se trata de combater o exército iraquiano ou outro. Mas o que vimos naquela guerra foi uma tentativa para derrotar os soldados iraquianos e chegar a Bagdad o mais rapidamente possível. As minhas críticas prendem-se com o facto de não termos compreendido a cultura e política iraquiana. Não estávamos preparados para o pós-guerra. O que se gerou foi o caos, violência e instabilidade. E vai ficar muito pior antes de melhorar.
A forma como a Administração aplicou a sua doutrina...
Não aplicou. O que fez foi usar um slogan. Quando vi o nome atribuído à operação dos EUA no Iraque fiquei abismado. O que é interessante é que o ex-secretário da Defesa Donald Rumsfeld pertencia ao grupo de trabalhos. Fiquei chocado por não ter aplicado a doutrina correcta.
Porque não o fez?
Na Casa Branca acreditavam que, chegados a Bagdad, a guerra terminava, os iraquianos assumiam o controlo e não era preciso preocuparem-se com o pós-guerra. Se olharmos para o plano do general Tommy Franks, prevê que 45 meses após a invasão, no Natal de 2006, os EUA só já tivesse 20 mil soldados no terreno.
Quando elaborou a doutrina, pensou nas vítimas que poderia causar?
O objectivo do "Choque e Pavor" era minimizar as baixas. Por isso, não posso responder à sua pergunta. Claro que há baixas, danos colaterais. Não é uma questão de doutrina, é a tragédia da guerra.
Como é que classifica a situação no Iraque neste momento?
Desesperada.
Falaria em guerra civil?
Há várias guerras civis. Entre xiitas, sunitas e curdos. Há quatro ou cinco fontes de violência: rebeldes, terroristas, Al-Qaeda, prisioneiros, iraquianos que recebem dinheiro para fazer explodir coisas. É uma situação muito complicada, tal como os mais recentes relatórios dos serviços secretos concluíram.
Qual é a solução?
Não há nenhuma.
Mas entre enviar mais tropas e retirar, qual é a melhor opção?
Não sei. Se retirarmos amanhã, a situação vai cair numa enorme instabilidade e violência. Esse seria provavelmente o pior cenário. Mas se ficarmos, também se pode agravar. A minha tendência é para ficar, mas o que se passa é uma catástrofe e não há solução. Apenas podemos conter a violência. E nem a Administração, nem o Congresso parecem ver isso. Os democratas criticam a Casa Branca, mas não têm uma alternativa.
Faz parte dos 65% de americanos que acham que os EUA não podem ganhar a guerra
Sim, e achei isso desde o primeiro dia. Não percebemos no que nos estávamos a meter. Como se define ganhar? Eu diria que é deixar um país estável com um governo democrático. Temos de esquecer a ideia de impor uma democracia.
Todos falam de um ataque ao Irão. É uma possibilidade?
Sim.
Os EUA têm meios para mais uma guerra?
Não se trata de mais uma guerra. Se houver um ataque, irá ocorrer no próximo ano contra as instalações nucleares iranianas. É claro que temos meios para o fazer. A probabilidade de o fazermos é baixa, mas não é nula. Bush não vai deixar essa responsabilidade para o sucessor.
Desta vez deviam aplicar a sua doutrina?
Não a deviam ter aplicado da primeira vez. Atacar o Irão pode ser tão mau ou pior do que atacar o Iraque. Trata-se de um país com mais de 70 milhões de habitantes e tem forma de retaliar.
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