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E se toda a Europa lesse o mesmo livro de História?

por

Ângela Marques

José Carlos Fernandes com fotomontagem de Pedro Nunes (ilustração)  

Todos pela mesma bitola ou cada um com a sua versão da História? Aproveitando a presidência da União Europeia, a Alemanha quer criar um Livro Europeu de História para os estudantes dos 27 estados-membros. E até já tem um manual franco-alemão para lhe servir de modelo. A edição em toda a Europa ainda é só um projecto, mas já faz tremer os países vizinhos.

A intenção da ministra da Educação alemã, Annete Schavan - que na semana passada presidiu a um encontro informal de ministros em Heidelberg, na Alemanha -, até era boa: ajudar a relançar os valores comuns europeus. Mas soou mal a alguns dos seus homólogos. "Não acreditamos nesse projecto", afirmou o ministro polaco, Roman Gyertich, que se apressou a sugerir uma alternativa. A de um livro semelhante ao franco-alemão (ver página ao lado), mas germano-polaco.

"Não se trata de reescrever a história", garantiu o porta-voz do governo alemão, Rainer Rudolph, aos jornalistas. Para explicar depois: "Não queremos deixar de fora nada de que os alemães não gostem. Não vamos sugerir que se retire o que quer que seja que incomode os alemães ou quaisquer outros." Concluindo: "Isso seria ridículo."

Ridículo, mas não impossível, terão pensado alguns representantes dos 27, que criticaram a proposta. Segundo o porta-voz da Comissão Europeia em Portugal, "houve reacções negativas à ideia alemã na reunião, e muitas críticas na imprensa britânica e polaca, antes do encontro". No Reino Unido, o Guardian escreveu que "a Alemanha tem passado décadas a explorar o seu passado nazi, usando o sistema de educação, os media e o debate público para isso".

Apesar de ser uma ideia com a assinatura de Annette Schavan, a criação de um Livro Europeu de História tem o entusiasmo da chanceler Angela Merkel. E já conquistou Espanha (ver texto em baixo). Pouco convencidos estão a Holanda, a República Checa e a Dinamarca.

Portugal esteve representado na reunião pelo secretário de Estado-adjunto e da Educação, Jorge Pedreira. Mas, segundo o porta-voz do ministério, este não tem posição sobre a matéria. É que "não foi apresentada uma proposta formal de um Livro Europeu de História", e o secretário de Estado não quer pronunciar-se antes disso acontecer.

Para já, a ministra alemã só pode insistir. Dizendo, como disse em Heidelberg, que "no dia em que os 27 membros da UE concordarem num livro de História para todos teremos conquistado um grande objectivo". Qual? Não diz.

Japão e Coreia já se estrearam

Demorou dez anos a escrever, mas está nas livrarias desde o início do mês. O livro A História de Trocas entre o Japão e a Coreia não é um manual escolar, foi pensado por historiadores japoneses e da Coreia do Sul como um suplemento para o secundário.

Segundo a agência Japan News, foi a primeira vez que trabalharam juntos, deixando de lado visões controversas sobre o passado, em particular sobre as invasões da Coreia pelo Japão. E o resultado está aí. "Mostrando que os países podem escrever sobre a sua história baseando-se em factos, apelámos aos coreanos com sentimentos anti-Japão", disse um dos professores responsáveis pelo livro. Para o historiador, o livro aproximou os dois países. Mas será assim numa Europa de 27?


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