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por
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Nos anos 80 do século passado, em contraposição ao socialismo democrático e à teologia da libertação, assistiu-se ao aparecimento e revitalização de uma nova teologia política: a neoconservadora. Os seus representantes mais conhecidos foram sociólogos e politólogos, provenientes de destacadas universidades americanas: M. Novak (católico), R. Neuhaus e R. Benne (luteranos), etc.
O seu objectivo fundamental é o de apresentar o capitalismo, tal como eles o entendem, como o sistema mais humano, racional e justo, sublinhando a afinidade que existiria entre esse sistema e a tradição judaico-cristã. Embora os indivíduos persigam os seus interesses próprios, no final, mediante um secreto desígnio divino e uma espécie de harmonia preestabelecida, precisamente do livre jogo de interesses individuais resulta a ordem social. E o mercado aparece com uma missão quase divina. O mercado é um pouco como Deus: Providência para todos. Se para alguns é causa de sofrimento e até morte, Ele saberá a razão pela qual isso acontece: será uma provação ou castigo; de qualquer modo, um sofrimento passageiro, que terá uma redenção final.
Temos aqui uma espécie de "mercadodiceia", como substituto da antiga teodiceia, portanto, o mercado como chave de solução dos problemas humanos e da felicidade.
No quadro do seu estudo crítico sobre os fundamentalismos, o teólogo Juan José Tamayo sublinha a importância do fundamentalismo económico neoliberal, com características de uma religião e uma teologia própria: precisamente a teologia do mercado.
É uma religião que quer passar despercebida, como se o não fosse. Eis algumas das suas características: o seu dogma fundamental são o poder e a força expansiva do Dinheiro, que se torna o comando do destino dos seres humanos e o controlador das suas consciências; anuncia o evangelho da felicidade aos pobres; os seus sacramentos são os produtos comerciais, envolvidos numa bela e atraente simbólica venal e que excita o desejo; como já Walter Benjamin tinha visto, os seus templos são os bancos; os seus sacerdotes são os banqueiros e grupos financeiros; a sua ética, isto é, contra- ética, é a da competitividade e lucro sem limites; o seu deus é o mercado, um deus com atributos de toda a divindade: omnipotência, omnisciência e omnipresença - e é um deus único, que não admite rival, de tal modo que R. Garaudy tinha razão ao falar do monoteísmo do mercado; os deuses da teologia do mercado, que são criações históricas, personificando leis da economia de mercado, apresentam-se como naturais, e a sua lógica é a violência sacrificial estrutural, em cujo altar se imolam vidas humanas.
Nesta religião, não há lugar para a graça nem para a misericórdia e a compaixão. O deus que a anima são os ídolos do Ouro e da Prata, que já o Salmo 115, da Bíblia, desmascara: "Os seus ídolos são prata e ouro, obra de mãos humanas; têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não cheiram, têm mãos e não tocam, têm pés e não andam."
A Bíblia não é contra a riqueza, que considera, concretamente no Antigo Testamento, uma bênção de Deus. Mas é radical na denúncia da injustiça dos ricos e dos mecanismos de pauperização, declarando que Deus é defensor dos pobres. Isaías escreve: "Ai dos que afastam os pobres do tribunal e zombam dos direitos dos fracos do meu povo, fazendo das viúvas a sua presa e roubando os bens dos órfãos!"
Contra o endeusamento do Dinheiro Jesus deixou esta palavra decisiva: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro."
É importante observar que, no aramaico, Jesus diz: "Não podeis servir a Deus e a Mamona". Ao personificar e deificar a Mamona, quer denunciar as riquezas injustamente procuradas e adquiridas e aquela ambição demoníaca que estruturalmente produz injustiça e tudo sacrifica ao ter. O Dinheiro não é fim, mas meio ao serviço da Humanidade.
A história evangélica de Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, é significativa. Não se diz que Zaqueu renunciou ao seu dinheiro nem ao seu ofício. Mas a salvação entrou na sua casa, porque decidiu dar metade dos seus bens aos pobres e compensar generosamente as injustiças cometidas.
Como resume o exegeta D. Marguerat, o dinheiro, dentro de um sistema económico gerador de injustiças e deificado, é ilusório e mortífero; "investido na partilha, libertando os necessitados da sua vergonha, torna-se fonte de vida".
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