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opiniao

Fim de ciclo

por

Diogo Pires Aurélio

Professor universitário  

Vai uma certa agitação no mundo dos jornais, basicamente porque se começa a pressentir que o tempo em que eles possuíam uma influência na vida pública, tão inquestionável que até se lhes chamava o quarto poder, entrou em declínio aparentemente irreversível.

Boa parte da agitação é paroquial: se o número de leitores desce, a culpa é de imediato, e por rotina, atribuída à falta de qualidade, à falta de imaginação ou à falta de investimento no sector. Talvez haja muito de verdade em tudo isso. A crise, porém, é reconhecidamente universal e tem vindo a atingir, ao longo da última década, jornais de que não se pode falar assim. Convirá, por isso, perceber que não estamos a lidar com um problema português e que, muito pelo contrário, o mundo da imprensa tradicional, como o conhecemos nos dois últimos séculos, tem globalmente os seus dias contados. Os novos moldes em que a informação já está presentemente a circular, assim como a sua previsível evolução, não deixam margem para grandes dúvidas a tal respeito.

Mas esse nem sequer é, a meu ver, o aspecto mais interessante. De uma forma ou de outra, a informação acabará por encontrar as tecnologias e os circuitos comerciais que lhe permitam circular. A pergunta que sobra é como se organizará no futuro aquilo a que se chama de espaço público e que possui no modelo actual da Comunicação um dos seus pilares. Como se processará, no registo tendencialmente caótico da informação do futuro, a selecção e hierarquização dos acontecimentos que os jornais, mal ou bem, têm vindo a fazer? E sobreviverá a democracia representativa à tentação de uma proximidade tal entre poder e eleitores, que a expõe a todos os riscos do populismo?

PS: Por razões estritamente pessoais, encerra aqui esta coluna e a minha colaboração no DN. Foram, por junto, e com raros intervalos, mais de três décadas, a primeira das quais a tempo inteiro. No momento em que me despeço, é-me grato reconhecer a generosidade com que, desde 1976, sucessivas direcções do jornal aqui me acolheram, assim como a liberdade que sempre me foi deixada. Aos leitores, agradeço a atenção e as críticas que frequentemente me dirigiram. Ao DN, desejo que consiga adaptar-se o melhor possível aos tempos que aí vêm e honrar, por um lado, a sua tradição centenária, por outro, o papel que desempenhou na consolidação de uma opinião democrática entre nós.


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