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A lição de Jay Leno

por

João Lopes  

Quando, na imprensa, alguém chama a atenção para o simplismo mental de muitas conversas que passam nos canais portugueses, há sempre alguma boa alma vigilante que se dispõe a proclamar: "Eles queriam é que só se falasse de semiologia..." Não estou a caricaturar: em Portugal, dizer frivolidades e incoerências não é apenas um privilégio que podemos, recatadamente, partilhar com os amigos; é também um estilo de fazer televisão.

Daí que, de vez em quando, seja uma bênção encontrar quem faça televisão encarando muito a sério o seu papel, recusando banalizar a densidade e complexidade dos assuntos que aborda. E não estou a pensar em nenhum protagonista dessa área muito específica que é o comentário político em que, por definição, a seriedade faz parte das regras do jogo. Refiro- -me, muito simplesmente, a um grande senhor da televisão americana que dá pelo nome de Jay Leno. Na madrugada de sexta para sábado, reencontrei-o no seu TonightShow (na SIC Mulher) a entrevistar Clint Eastwood. O pretexto era Cartas de Iwo Jima, filme que trouxe a Eastwood quatro importantes nomeações para os Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador.

O diálogo, divertidíssimo, começou com referências ao fu-tebol americano, passando para os talentos (moderados...) de Eastwood no golfe e desembocando numa surpresa: Leno tinha comprado um velho disco de vinil, com Eastwood a cantar temas country (no começo dos anos 60, quando protagonizava a série televisiva Rawhide). Quando a conversa passou para Cartas de Iwo Jima, não foi preciso lançar nenhum aviso, do género: "Isto agora é a sério!" Nada disso. As palavras fluíram com naturalidade, e também com precisão, com Eastwood a sublinhar os paralelismos humanos e ideológicos que o motivaram na abordagem sucessiva dos soldados americanos (As Bandeiras dos Nossos Pais) e japoneses (Cartas de Iwo Jima).

A lição de Jay Leno é muito simples: é possível falar seja do que for sem ceder a qualquer forma de estupidez ou aviltamento. Não se trata de escolher entre ser "popular" e ser "erudito". Aliás, tal oposição apenas tem servido para impor programações de crescente mediocridade. Trata-se, isso sim, de não menosprezar a inteligência de cada ser humano, incluindo, claro, o espectador.


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