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por
Isabel Lucas
Gonçalo Fernandes Santos (imagem)
Ruy Duarte de Carvalho
Escritor
Nasceu em Santarém, em 1941
Naturalizou-se angolano em 1963
Antropólogo, doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris.
Autor de 'Vou lá Visitar Pastores', 'Os Papéis do Inglês' ou 'Lavra'
Paixão foi a palavra mais repetida numa conversa onde a emoção andou colada à paisagem. Ruy Duarte de Carvalho, português de nascimento, angolano por opção, um dos aiores escritores em língua portuguesa (sem favor) seguiu a rota de dois escritores brasileiros: João Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. Juntou-lhes outras paixões, como Blaise Cendrars e a desmedida ou o inusitado que atravessa um país que é um continente. O sertão visto por quem o descobriu primeiro nos livros e procurou depois reencontrar-se nele.
Como foi o confronto entre a paisagem real e a paisagem literária de João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas?
Não dá para confrontar. Posso-lhe garantir agora, que conheço bastante mais dos territórios do Dr. João [como chama a João Guimarães Rosa] do que o próprio Dr. João. Depois de ter lá ido, sei perfeitamente onde é que o Dr. João foi e de onde ouviu falar...
Quer dizer que descobriu o que ele inventou no romance?
Ele sabia que era para ali e não precisou de lá ir. Fui. Não fui ingenuamente, porque gosto é disso. No Norte de Minas mesmo, quando encosta a Goiás, aqueles sertões mais fundos, que agora é um parque que se chama Grande Sertão... aí, quase jurava que o Dr. João Guimarães Rosa nunca foi.
Como decidiu a geografia desta sua escrita. Foi simplesmente seguir a pista de Guimarães Rosa?
Na pista do que ele tinha escrito. E lá estão os mesmos rios... mas eu fui vê-los e suspeito que ele não foi.
De onde lhe vem essa suspeição?
Há referências, mesmo da geografia, que se ele as tivesse visto não teria deixado de as mencionar.
Os tais detalhes?
Os detalhes que são apaixonantes e que se ele se tivesse deparado com eles... Ele foi diplomata a vida inteira, tirava umas férias... Quando refiro isso não quero demolir a criatura. Sou um incondicional da obra do Guimarães Rosa, que acho um pouco como a obra de Kafka, que ainda não revelou tudo. Nem os estudiosos extraíram tudo nem ele sabia onde é que aquilo ia chegar. Mas eu não estou aqui para denunciar ninguém.
O título remete para uma geografia com início em Angola. É daí que parte, dessa condição de angolano...
Fui ao Brasil convidado para fazer palestras, depois convidaram-me para ficar seis meses e para viajar...
Por isso diz que um livro se pode insinuar?
Pode. Porque estava à margem de todos os meus programas. Eu não previra escrever isto. Aproveitei. Deu-me para tratar uma coisa que me apaixonava há imenso tempo. O rio São Francisco como o território de Guimarães Rosa e de Euclides da Cunha, que é outra paixão.
Um mesmo território visto por dois escritores de dois tempos diferentes cruzados pelo olhar de um outro no tempo actual...
E há um quatro que é o das explorações do Richard Francis Burton, outra paixão, apesar do Burton não ser uma figura apaixonante. É um egoísta de altíssimo coturno, que também me apaixona porque tenho amigos do mesmo gabarito (risos).
Foi difícil encontrar um tom para cruzar esses olhares?
Não. Porque depois tudo isto é forjado em gabinete, num prédio de S. Paulo. É uma questão de manejar a escrita e não é difícil.
Aproveita para cruzar duas histórias, de dois países.
Ora, uma oportunidade para continuar a falar de Angola mas olhando o país do outro lado. Há muita maneira de ver Angola mesmo lá dentro. E depois como não consigo estar muito tempo fora, interrompi a viagem no Brasil, vim a Luanda, voltei, enfim. Deu para brincar e resultou isso e não me compete a mim avaliá-lo.
E "isso" não é só um livro de viagens?
Também não é. Tem muita ficção aí, tem história, tem antropologia...
E que ficção é essa?
Esta é a ficção da minha própria viagem. A ficção do livro. Essa é a viagem do livro, mas não é exactamente a viagem do autor do livro. A viagem foi de outra pessoa.
Este narrador não é o Ruy Duarte de Carvalho?
Nem sempre. É uma coisa que me está a acontecer cada vez mais. Ponho o autor a trabalhar de manhã e o narrador a vigiá-lo à tarde. E agora no seguinte isso vai aparecer muito explícito. É o próprio narrador que diz que foi convocado para actuar das cinco da manhã às três da tarde e aí trabalha como qualquer forçado. O resto é para o autor andar a ver paisagens.
Há uma parte em que diz que esta viagem tem um lado interior, de se tentar descobrir ou entender melhor enquanto pessoa...
Talvez. Dizer coisas que me estão a ocorrer pela primeira vez. Daí que cada vez se me torne mais explícito que o autor que decide não é o narrador que escreve. O narrador que escreve recebe instruções do autor que decide e que pensa e depois durante aquelas horas tem as notas que se acumularam e faz uma montagem como no cinema.
Lá está o cinema...
Mas não pode deixar de estar. Da mesma maneira que hoje é pacífico que o cinema recorra à literatura é menos comum que a literatura recorra às técnicas às imagens, às metáforas que são próprias da linguagem cinematográfica. Não faço nenhum esforço para isso.
É natural naquela paisagem haver o apelo do cinema, ou não tem a ver com as paisagens?
Tem a ver com as minhas paisagens interiores. Acho que na vida nunca tenha vivido sem ser como quem faz a répèrage para depois filmar. Também tem a sua graça, não é? mesmo os romances. É para depois fazer a história como ela é. É confuso, mas é mais ou menos assim.
Não consegue separar a emoção da paisagem?
Por isso é que deixei de escrever antropologia tal qual.
Porque a emoção persiste?
Andámos durante anos a produzir textos científicos, a tentar negar a subjectividade, finalmente apareceram uns sábios a dizer que ela é inerente, mas isso já todos sabíamos. Eu prefiro deixar que a emoção actue como um instrumento de percepção. Aproveito-a. Isso está ligado à minha subjectividade. Se não tenho maneira de as evitar o melhor é assumi-las.
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