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Pedro Correia
"Até o número de mortes por acidente de viação baixou, nos primeiros onze meses de 2005. Para isso terá contribuído o aumento do preço do combustível." Esta declaração de Correia de Campos, ao enunciar ontem as virtualidades do Serviço Nacional de Saúde, pretendia ser irónica. Mas não arrancou mais do que alguns sorrisos amarelos das pessoas que o escutavam na cerimónia de assinatura dos protocolos entre o Ministério da Saúde e seis municípios. "Este ministro é mesmo assim: tem um estilo que por vezes é descontraído de mais", comenta ao DN um deputado socialista, entre algumas farpas a Correia de Campos.
De facto, o titular da pasta da Saúde é um dos elementos mais polémicos do actual Executivo. E bem pode queixar-se de si próprio. A forma como tem gerido alguns temas incómodos, suscitando contestação até nas fileiras socialistas, revela uma vocação para franco-atirador que contrasta com o estilo sóbrio, contido e controlado do chefe do Governo. José Sócrates já mais de uma vez agiu para controlar danos provocados pelo seu ministro da Saúde. Foi assim há um mês, quando Sócrates destacou Correia de Campos para o Alentejo, depois de o ministro ter feito declarações mal recebidas pelos autarcas socialistas de Mértola e Odemira. "A instalação de unidades rápidas de suporte intermédio de vida [naqueles concelhos] não é prioritária", disse Correia de Campos. Logo após dois indivíduos em Odemira terem falecido por falta de atendimento em tempo útil. Por insistência de Sócrates, o titular da Saúde acabou por anunciar quatro novos serviços de urgência básica no interior do Alentejo. Isto porque, como disse então, os alentejanos "afinal não são cidadãos de segunda".
Mas a polémica não parou aqui. Num dia, Correia de Campos anunciou um inquérito às circunstâncias em que um homem atropelado em Odemira demorou quase sete horas a ser evacuado para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde faleceu três dias depois. No dia seguinte, mandou travar a investigação. "Não faço inquéritos por demagogia", justificou na Assembleia da República.
Este ministro que tanto garante "termos de viver com os meios que temos" como admite contratar médicos ao estrangeiro fez exaltar os ânimos socialistas ao decretar novas taxas moderadoras sobre internamento e cirurgia, passando pelo encerramento de sucessivas maternidades - um dos temas que mais suscitou críticas ao Governo em 2006, até dentro do aparelho do PS, que Sócrates quase conseguiu pacificar por completo.
Há uma semana, foram os próprios deputados do PS a irritarem-se com uma declaração de Correia de Campos, que lhes chamou meros "passageiros" de um comboio liderado por ele. Tudo começou quando o ministro comparou a reforma da saúde a "um comboio, uma caravana em marcha". Nada de mal se ficasse por aqui, mas com ele são frequentes as situações em que existe um notório excesso de palavras.
"O maquinista, quando muito, serei eu. Os senhores são passageiros que representam os cidadãos", sublinhou o titular da Saúde aos deputados do seu partido, falando nas jornadas parlamentares do PS, realizadas em Óbidos. A declaração foi mal recebida por vários deputados.
A propósito do anunciado encerramento de 15 urgências hospitalares, o peculiar estilo de Correia de Campos voltou a estar em foco. Por exemplo, na passada terça-feira, ao acusar milhares de manifestantes reunidos em Chaves de "perturbarem a ordem pública e a livre circulação dos cidadãos." Uma frase muito semelhante à que proferira dias antes, contra protestos idênticos realizados em Valença - um município de maioria socialista. Também na gestão deste problema o ministro tem parecido por vezes um pouco "descontraído de mais". Razão suficiente para que Sócrates, por contraste, sinta mais motivos de preocupação. Que mais irá dizer António Correia de Campos?
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