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por
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
O jornalismo de referência, segundo dizem, está cada vez mais parecido com o lince-da-malcata. É uma espécie em vias de extinção. Aguardo por um documentário da National Geographic na redacção do DN. Uma acção aparatosa da Greenpeace na Avenida da Liberdade. Cartazes escritos a letras gordas "parem a matança". Nos últimos três anos, entre efectivos e interinos, o Diário de Notícias teve seis directores. O Público reestruturou-se de cima a baixo e cremou o velho logótipo. O Expresso reestruturou-se de baixo a cima e expulsou o velho guru. Os leitores, esses, continuam a acenar com a mão: adeusinho. A maneira fácil de encarar o problema é falar na iliteracia ou nos novos media - dois extremos, o mesmo argumento: não há espaço para os jornais. A maneira mais difícil é admitir que a qualidade do que se imprime é, no mínimo, duvidosa. Porquê? Porque jornais e jornalistas funcionam em circuito fechado. Escrevem para as fontes e para os colegas, como se os leitores não fossem aqueles para os quais trabalham, mas aqueles que têm o dever moral de os ler. Porque são superficiais. Confundem a construção das notícias com o relato do que dizem as partes em confronto, recusando a análise e comprometendo um jornalismo adulto e sofisticado. Porque têm demasiados preconceitos. Deixam de lado dezenas de boas histórias, etiquetadas como "popularuchas", esquecendo que a grande distinção entre um jornal de referência e um popular não está na escolha das notícias mas no seu tratamento. Porque lhes falta agressividade. O jornalismo português não está a cumprir o seu dever de vigilância sobre os poderes - não irrita ninguém, não incomoda, é bem comportado, pouco curioso, insosso. Porque há um défice de criatividade. Existem canais de televisão com 24 horas de notícias, informação online, diários gratuitos, mas os jornais continuam a encher páginas com noticiário morto na véspera em vez de centrarem os seus recursos nas histórias que são só suas. Os leitores não são estúpidos. Os jornais de referência é que se estão a transformar nos dodós do século XXI. Extintos por incapacidade de adaptação.
"Não me passa pela cabeça que a proposta seja desfigurada"
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