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por
João Pedro Henriques
O estado de graça verifica-se: não há nenhum sondagem que coloque o PS fora da liderança. Pelo contrário: não só lidera como o faz com grande vantagem. Alguns estudos de opinião chegaram mesmo a revelar um PSD abaixo do resultado obtido por Pedro Santana Lopes nas legislativas de há dois anos (28,7 por cento).
Em 20 de Fevereiro de 2005- passam hoje dois anos - o PS obteve o seu melhor resultado legislativo de sempre, 45,03 por cento, a primeira maioria absoluta da história do partido. Conseguiu-o depois de três anos absolutamente desesperantes para o partido, na oposição às voltas com o processo Casa Pia, que chegou a levar à prisão o número dois do PS, Paulo Pedroso, para além de notícias várias dando conta de que o próprio secretário-geral, Ferro Rodrigues, estaria envolvido.
De então para cá, José Sócrates ultrapassou sem dificuldades alguns resultados eleitorais maus para o partido (as autárquicas de Outubro de 2005 e as presidenciais de Janeiro de 2006), resolveu em operações-relâmpago duas remodelações inesperadas (a de Campos e Cunha e a de Freitas do Amaral) e, sobretudo, conseguiu sempre não sair chamuscado quando alguns dos seus ministros ficava debaixo de fogo. E adaptou-se com grande dose de flexibilidade táctica (que tenta sempre não aparentar) à circunstância de, cerca de um ano depois de ter conquistado o poder, ter chegado a Belém o primeiro Presidente da República eleito à direita do PS, Cavaco Silva.
Antes e depois de Cavaco
Quem consulta os jornais destes dois últimos anos verifica sem grandes dificuldades: há, na governação de José Sócrates, claramente, um antes e um depois de Cavaco Silva . No antes - um ano, mais ou menos -, o chefe do Governo protagonizou uma acção política ofensiva que enfrentou algumas das corporações mais poderosas do país, os juízes e os professores, por exemplo. Batalhas épicas que lhe valeram greves inéditas (a dos magistrados) e manifestações de rua, mobilizadas pela CGTP-In, como há muito o país não testemunhava. Revelando, para alguns comentadores, tiques populistas, Sócrates protagonizou assumidamente um combate aos "privilégios". Neste campo a medida mais simbólica terá sido a de acabar com as férias judiciais. Está por avaliar - talvez isso nunca acabe por acontecer - a eficácia da medida no desempenho global da justiça. O sector aguarda medidas que implicarão, muito previsivelmente, contestação de sectores poderosos (o poder local, por exemplo), como por exemplo o redesenho do mapa judicial.
Depois veio Cavaco Silva, o principal beneficiário nas eleições presidenciais da divisão fratricida Soares/Alegre, que Sócrates objectivamente não evitou. O Presidente apadrinhou a necessidade de um entendimento entre o PS e o PSD sobre justiça e Sócrates acabou por ceder, a bem da paz institucional. Depois disso, já por mais de uma vez, Cavaco sublinhou a importância da pacificação do sector.
Agora, dificilmente o primeiro-ministro terá margem para se lançar novamente em ataques frontais contra interesses profissionais instalados no Estado, como o fez no início do seu mandato.
Neste momento, Sócrates prepara a presidência da UE (segundo semestre deste ano). Já se sabe que aprendeu com Guterres, sendo portanto pouco provável que se deixe desgastar. Tem até 2009 o enorme desafio de endireitar as contas públicas, relançar o crescimento e reformar a administração pública. Pelo meio, guarda em rigoroso sigilo o que tenciona fazer do seu governo: remodela já ou só em 2008, quando precisar de relançar a imagem do executivo tendo em vista as legislativas de 2009? Ninguém antecipa caminhos. Mas há certezas: alguns ministros - casos de Manuel Pinho ou Correia de Campos - dificilmente ultrapassarão o enorme desgaste de que padecem.
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