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por
Jacinto Lucas Pires
Escritor
jacintolucaspires@gmail.com
Saudades desses jornais ao mesmo tempo clássicos e modernos onde a realidade parecia, talvez, menos "real" mas também, certamente, mais "possível".
Jornais onde uma primeira página podia ser composta só de texto e onde o preto e branco bastavam para conseguir a gama completa das cores imagináveis.
Jornais onde uma fotografia era um acontecimento, uma obra de arte fazendo- -se desentendida. Jornais simples, bonitos. Grandes e portáteis, belos objectos não solenes, desenho limpo em papel barato.
Jornais com menos palha e mais palavra.
Jornais abertos ao mundo mas com uma específica, única, forma de abrir o mundo.
Diz quem sabe que há uma crise da imprensa.
Os jornais tradicionais estão em quebra, é cada vez mais difícil conquistar novos leitores, há a Internet, o aparecimento dos jornais gratuitos, uma "aceleração digital do tempo" que não se coaduna com o ritmo do papel impresso, uma tendência de "especialização do gosto" difícil de conseguir com as velhas lógicas generalistas, etc.
O fenómeno não é deste exacto momento mas parece, por estas alturas, ganhar contornos um pouco mais nítidos.
No essencial, o acesso à informação tornou-se - no nosso mundo que a "globalização" fez, simultaneamente, aumentar e diminuir - mais fácil e mais rápido, por vezes criando a ilusão do mundo como permanente notícia em "tempo real" e espécie de jogo "interactivo".
Neste cenário, parece-me que a resposta dos jornais não pode ser apenas "gráfica" nem no sentido de se tornarem meras "plataformas" pretensamente neutras, paternalisticamente explicativas.
Se o mundo está assim e a informação está em todo o lado, os jornais têm de ser - de novo! - afirmativos. Com a seriedade jornalística sempre exigível mas tornando claro de onde é que se vê o mundo quando se olha através daquele título concreto (a imagem de um jornal enrolado pelo qual se espreita uma terra-à-vista). Um carácter afirmativo nos conteúdos - jornais mais "pensamento" - e também nos "contentores" - jornais mais "imaginação".
Saudades desses jornais que nunca existiram onde, um dia, poderia acontecer a graça da canção de Rufus Wainwright: uma manchete anunciando A Vida É Bela.
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