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por
Pedro Rolo Duarte
Jornalista
pedro.roloduarte@gmail.com
Os portugueses adoram dar palpites. Os portugueses têm opinião sobre tudo, mesmo sobre o que não conhecem. Os portugueses falam pelos cotovelos - e quando falam não se importam nada de revelar a sua ignorância. Os portugueses até têm uma frase que previamente os desculpa pelo que não se inibem de dizer a seguir: "Eu disso não sei nada, mas acho que...."
Ouvi muitos portugueses, em Lisboa, dizer que não percebiam porque se fazia um referendo se já tinha sido feito um outro referendo - mas ainda assim tinham opinião e iam votar. Também ouvi dizer que os homens não de-viam votar porque o tema não era com eles.
Os portugueses são solícitos e participativos, costumam dizer os políticos. Se um português perdesse uma ou duas horas, na semana passada, a navegar pela blogosfera, encontrava um universo empenhado a debater forte e feio sobre o referendo e o que estava em causa. A RTP organizou dois debates que ocuparam mais de cinco horas de emissão. Há milhares de páginas de jornal ocupadas com o assunto. Em rigor, ninguém pode dizer que lhe faltava elementos para formar uma opinião.
Na verdade, no entanto, mais de metade dos portugueses eleitores preferiu não se dar ao trabalho de votar. Os políticos profissionais desvalorizaram o dado - pudera... -, mas não é possível ignorar cinco milhões de inscritos que passaram ao lado do referendo. Cinco milhões... Entre eles estão muitos dos que adoram dar palpites e têm opinião sobre tudo, muitos dos que gritam nas ruas que "os políticos são todos iguais", muitos dos que protestam, elogiam, opinam e acham que têm direitos. Até mesmo o direito a contestar a democracia.
Perante esta grosseira forma de cidadania, apetece defender a dúbia ideia de "democracia musculada" e legislar o "voto obrigatório". Ou a penalização de quem não vota. Confesso que começa a incomodar-me esta nossa pose liberal muito simpática e "querida" do voto como "dever cívico". A realização de eleições e referendos custa dinheiro e esforço ao país e responde a uma ideia de regime que presume a participação dos cidadãos. Se insistimos no "porreirismo" do voto livre, sujeitamo-nos ao pior do regime: ninguém cumpre os seus deveres de cidadania, mas todos têm exigências a fazer. Parece-me que está na altura de abrir este outro debate: não deveremos instituir aqui, como em países civilizados (a Bél-gica), ou que sofrem do mesmo défice de cidadania (o Brasil), o voto obrigatório?
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