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por
Paula Sá
"Um dia quando estava feliz a brincar no mais íntimo das tuas entranhas senti algo de muito estranho, que não sabia como explicar: algo que me fez estremecer. Senti que me tiravam a vida!... Uma faca surpreendeu-me quando eu brincava feliz e quando só desejava nascer para te amar (...) Mãe, como foste capaz de me matar?..." Este é apenas um excerto de uma carta que foi colocada nas mochilas de crianças de dois infantários de Setúbal, o Aquário e a Nuvem, da rede de instituições particulares de solidariedade social (IPSS), e por isso comparticipados pelo Estado, no caso dirigidos pelo Centro Paroquial de Nossa Senhora da Anunciada. A missiva de apelo ao "não" ao aborto, sem estar assinada, motivou a indignação de alguns pais, que protestaram junto das educadoras. E ontem já circulava na Internet em vários blogues.
Contactados os dois estabelecimentos, o DN foi remetido para o padre Vieira, que dirige os infantários. Tentámos contactá-lo para o Centro Paroquial repetidas vezes sem sucesso. O padre Lino Maia, da Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade (CNIS), mostrou-se surpreendido com a carta. Tanto mais que, sublinhou, a CNIS não tem posição oficial sobre o referendo de 11 de Fevereiro. "O nosso discurso desde Novembro é de grande abertura às várias opções." O padre Lino Maia não quis comentar o teor da missiva, mas frisou que se "trata de uma iniciativa localizada".
Um dos pais de uma criança do infantário, que não se quis identificar, considerou "inaceitável" ao DN que o seu filho "tenha sido arregimentado como 'voluntário' numa campanha tão violenta".
A carta de um pretenso feto à mãe que decidiu interromper a gravidez é, de facto, muito violenta. "Diz-me Mãe: quem poderia entrar cruelmente dentro de ti e chegar onde, com tanta segurança eu me encontrava, a fim de me matar? (...) Como poderia eu imaginar que uma mãe fosse capaz de matar o seu filho quando, em casa, não maltratam nem o gato, nem a televisão?"
E continua. "Agora, Mamã, sei tudo. Estou aqui no outro mundo e um companheiro que teve a mesma sorte do que eu, disse-me que sim, que foste tu... Disse-me que há mães que matam os filhos antes de nascerem. Mãe, como foste capaz de me matar? (...) Por acaso pensavas comprar uma máquina de lavar ou um aspirador, com os gastos que talvez eu te iria causar?"
A carta remata com a ameaça do Juízo Final e com um apelo. "Ele me disse que terás de Lhe dar contas do que fizeste! (...) Mamã, antes de me despedir de ti, peço-te um favor, que esta carta que te escrevo, a dês a ler às tuas amigas e futuras mães, para que não cometam o monstruoso crime que tu cometeste."
O Bernardo (nome fictício), de dois anos e meio, que frequenta um dos infantários onde a carta foi distribuída, deu-a à mãe, dizendo-lhe: "Tenho uma prenda para ti!"
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