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por
José Manuel Barroso
Jornalista
A notícia, no sábado publicada no semanário Sol, de que os nomes de António Oliveira Salazar e de Álvaro Cunhal lideram as escolhas dos votantes para Os Grandes Portugueses do programa da RTP provocou em mim sentimentos contraditórios. Salazar e Cunhal (sobretudo este), porquê? Que ideia construíram os votantes, acerca da História do seu país, para colocarem como primeiras escolhas homens tão avessos aos Direitos do Homem, às liberdades, à justiça e ao equilíbrio das sociedades do século XX?
Analisada numa perspectiva dos ganhos de civilização do século passado - e que hoje constituem pilares essenciais das sociedades democráticas em que nos inscrevemos -, a escolha dos dois grandes adversários da democracia e das liberdades, pela maioria dos votantes, parece um retrocesso, ao revelar, no seu subconsciente, a persistência da ideia de que só os lideres fortes e autoritários merecem admiração.
Mesmo assim, e numa perspectiva histórica, entendo melhor a escolha de Salazar. Apesar de ter governado o País em ditadura durante meio século, de ter perseguido implacavelmente os seus opositores, de ter uma ideia arcaica do desenvolvimento, de odiar a democracia - Salazar pode ser apreciado enquanto estadista, porque lhe foi dada a possibilidade de governar um país. O seu regime autoritário e repressivo pôs ordem no caos económico, financeiro e político herdado da I República, realizou obra na área das obras públicas, da educação e do fomento, manobrou de forma a evitar o domínio da Península Ibérica pelo nazismo e pelo comunismo (os grandes totalitarismos do século XX) e evitou a entrada de Portugal no flagelo da Segunda Guerra Mundial. Salazar tinha um sentido nacionalista do percurso histórico da Nação, odiando o comunismo e desconfiando do capitalismo e dos valores da potência americana. Enquanto peão importante no confronto da Guerra Fria (pela sua posição estratégica no Atlântico e no Índico, na fronteira oeste da Europa e com um império colonial), o Portugal de Salazar foi integrado no sistema de protecção colectiva constituído pela NATO. Em Portugal, como em África, o grande inimigo de Salazar e do seu regime foi o comunismo, o grande e ameaçador império em expansão.
Cunhal colocou-se no lado oposto a Salazar, reverso de uma mesma moeda. Como muitos jovens do seu tempo, abraçou com esperança messiânica o marxismo-leninismo, o qual substituiria na Terra o paraíso dos católicos no Céu. Lutou toda uma vida - com coerência similar à de Salazar - pelos valores em que acreditava. A partir dos anos 40 - e sobretudo quando o comunismo estendeu pela força o seu império a toda a Europa oriental, depois de, na década anterior, ter perdido a Guerra Civil Espanhola - Salazar e Cunhal foram dois grandes irmãos inimigos.
Em termos internos, Salazar representou um Ocidente autoritário e colonial, de raiz e valores cristãos, reprimindo duramente os agentes do grande satã, o comunismo e os comunistas, liderados por Cunhal. Este, por seu lado, lutou corajosamente contra Salazar e o seu regime, em nome dos valores e da ideologia em que acreditava. Na verdade, tal como Salazar, Cunhal não admirava a democracia. Em Cunhal, a palavra democracia era uma figura de retórica na luta contra o salazarismo. Os modelos do líder comunista eram bem menos democráticos ainda que o Estado Novo de Salazar: os regimes comunistas do vasto império soviético, "o sol da Terra" de Cunhal. A ausência de liberdades, o atraso económico, a repressão dos opositores e das minorias transformavam a ditadura do professor de Coimbra num simples purgatório, se comparado com o inferno do totalitarismo comunista.
O 25 de Abril tornou claro duas coisas: que Cunhal não acreditava, de facto, na democracia pluralista (disse-o, de resto, numa célebre entrevista à jornalista italiana Oriana Falacci) e lutava por um outro regime, como também o demonstrou durante o período que se seguiu à Revolução dos Cravos; e, ainda, que as suas grandes teorias sobre a sociedade e a economia eram baseadas num solene desconhecimento do País. Cunhal falhou todos os seus objectivos estratégicos, na ordem interna. Pareceu ganhar na ordem externa, nomeadamente na descolonização feita, mas essa vitória também foi de Pirro. A queda do muro de Berlim e a confirmação dos horrores do comunismo (como os do nazismo), que Cunhal sempre defendeu "coerentemente", mudaram o mundo. E atiraram para "o caixote do lixo da História" - uma frase tão do agrado dos comunistas - os sonhos e o mundo de Cunhal.
Do ponto de vista da História, Salazar terá sempre um lugar, que só os historiadores situarão com maior ou menor rigor (como sucede hoje a outros estadistas que foram, eles também, dirigentes inclementes, como D. João II ou o Marquês de Pombal). Cunhal, por mais que os votos dos militantes comunistas entrem nas urnas do programa da RTP, nem como resistente ocupará mais do que duas das linhas dos compêndios históricos.
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