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por
Fernando Madaíl
Tiago Lourenço (Imagem)
Bianca e Ary (nome que é homenagem ao poeta), dois dos seis cães daquela casa de Alcanena, saltitam em torno da cadeira de rodas à espera de festas e sorrisos. A expressão feliz da dona não denuncia as lágrimas choradas em Junho passado, quando Maria Luísa Morgado Castela descobriu que tinha engravidado aos 41 anos. "Não se faz um aborto como se se fosse para uma festa."
O caso até parece ter sido criado para ilustrar os argumentos dos defensores do "sim" no próximo referendo: paraplégica desde os 12 anos, há quase três décadas em cadeira de rodas, vinte operações à coluna ao longo da vida, Maria Luísa soube sempre que, devido à escoliose que lhe afastou o útero para o lado esquerdo, se desejasse ser mãe (hipótese que admitiu até aos 30 anos, idade em que lhe disseram ser "ainda muito nova" para laquear as trompas) teria de passar seis meses deitada - o que não será simples de aceitar para alguém que, até aos 18 anos, festejou quatro aniversários e quatro Natais em camas de hospitais.
No dia 14 de Maio, a pílula que tomava não produziu efeito, provavelmente por ter sido neutralizada pelos seis comprimidos (incluindo antibióticos e anti-inflamatórios) que tomou naquela semana. Enjoos matinais e dores de cabeça, além do atraso menstrual, fizeram-na desconfiar e, a 12 de Junho (segunda-feira seguinte ao aniversário do marido), foi à farmácia comprar um teste de gravidez e o resultado foi positivo.
Quarta-feira, um mês exacto após engravidar, foi ao médico de família, explicou a situação e disse que queria abortar. O clínico escreveu uma carta para a paciente entregar nas urgências de ginecologia e obstetrícia do Hospital de Abrantes, justificando o aborto "por razões óbvias".
As poucas horas que ali passou, nesse mesmo dia, ficaram recheadas de frases que Maria Luísa não esquecerá facilmente. "A senhora sabe que é proibido fazer aborto em Portugal", lançava-lhe, ainda na triagem, uma enfermeira "com ar muito zangado". "Vem aqui para se parir, não é para se tirar", atirava-lhe, já no andar de obstetrícia, uma jovem médica. "No ano passado tivemos cá uma senhora também de cadeira de rodas que agora está muito feliz com o seu bebé", aconselhava-a ainda uma auxiliar. Pelo resultado da ecografia, além de se confirmar que as contas das quatro semanas estavam certas, pois "o embrião ainda era difícil de localizar", Maria Luísa era informada de que o seu caso teria de ser submetido a uma comissão de ética - tendo agora de retornar ao seu médico de família, que a teria de encaminhar para o Hospital de Torres Novas.
Para quem se tornou paraplégica quando a árvore que o pai tinha acabado de cortar caiu para cima das três irmãs e a atingiu a ela; para quem, aos 14 anos, se habituou a ter uma vida autónoma, apesar de viver em cima de uma cadeira de rodas; para quem teve de regressar à escola (estudou até ao 12.º ano) e deparar com os colegas a olharem para si como se fosse um bicho no jardim zoológico, que cadeira de rodas era coisa rara numa terra pequena (agora, quando vê a Floribella, ri-se ao ver as ruas de Freiria onde a novela é filmada); para quem saiu de casa dos pais quando a tentaram impedir de ir viver com o marido, é difícil conceber que uma comissão de ética decida sobre a sua vida. "Tinha de ter filhos, não porque os desejava, mas porque os outros queriam que tivesse", sintetiza o que lhe parece um paradoxo.
Ainda nessa quarta-feira, foi ao consultório de um dos seus ortopedistas, que a acompanha há 23 anos - o clínico fez a tese com o seu processo, tão variadas técnicas cirúrgicas foram aplicadas na coluna vertebral de Maria Luísa - e participou em dez das suas operações no Hospital Curry Cabral. O médico tinha uma radiografia para diagnóstico de uma futura intervenção. "Sr. dr., hoje não venho por causa da minha coluna", avisava a paciente. Perante os factos, recebeu a sugestão de ver os anúncios das clínicas espanholas.
Entretanto, telefonou para uma amiga do Curry Cabral, pois passou tanto tempo ali internada que o hospital é quase "uma segunda família". Uma enfermeira foi informar-se junto de uma obstetra que, juntamente com números de telefone de Mérida e Badajoz, lhe mandou dar o recado: "Ela que despache o assunto o mais rapidamente que puder", pois os pareceres das comissões de ética vão arrastando os processos até passarem as 12 semanas da lei actual.
Ligou para Badajoz, explicou que era paraplégica e tinha o raro sangue RH negativo, e marcaram-lhe o aborto para a semana seguinte. Foi recebida por um médico acompanhado por um psicólogo na fase das primeiras perguntas, preencheu uma ficha, entrou numa sala onde estavam dois médicos e três enfermeiras, fez uma anestesia local, a intervenção durou uns cinco minutos - porque foi feita numa fase muito precoce, logo às seis semanas - e, depois, deram-lhe a medicação para tomar nos dias seguintes. Pagou 475 euros. Foi caro? "Em Portugal, pelo que ouço, na clandestinidade já levam 580 euros."
À saída, uma jornalista belga que está a fazer um documentário sobre o aborto, acompanhada por uma portuguesa, fez-lhe uma entrevista. Disseram-lhe que o testemunho podia ser filmado não revelando a sua identidade. "De cara tapada, porquê?", retorquiria. "Não fiz nada de que tenha de me arrepender."
E, para que não restem dúvidas, Maria Luísa garante que gosta muito de crianças. Os seus cinco sobrinhos também gostam de ir passar férias àquela casa de Alcanena, onde até há uma colorida piscina coberta, onde estão a ladrar as cadelas Nikita (nome inspirado na canção de Elton John) e Alanis Morrissete.
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