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por
Luciano Amaral
Professor universitário
Parece que a moda da utilização da História para ajustes de contas políticos está para ficar. Em Espanha, vários partidos propõem uma Lei da Memória Histórica que "reabilite" as vítimas do franquismo. Em Portugal, uma associação cívica propõe a "reparação" das vítimas do salazarismo. Na Polónia, um bispo vê-se obrigado a recusar o arcebispado de Varsóvia depois de descoberta a sua "colaboração" com a polícia se- creta comunista. O interessante aqui é o unilateralismo moral. Como se fosse possível a condenação de regimes pretéritos por decreto, esquecendo tantas outras coisas. Esquecendo, por exemplo, que muitas vítimas do franquismo foram elas próprias autoras de crimes horrendos; ou que tantas vítimas do salazarismo estariam prontas, uma vez tomado o poder, a fazer o mesmo ou pior do que o regime que as reprimia; ou que a "colaboração" da Igreja Católica com o comunismo na Polónia foi muito além de uns quantos "informadores" da Sluzba Bezpieczenstwa.
De certa maneira, é surpreendente a pouca atenção que recebeu em Portugal o caso do bispo Stanislav Wielgus, sobretudo num país onde há sempre tanta gente pronta a denunciar as mais diversas malfeitorias da Igreja Católica. Certamente por causa da boa imprensa das tiranias de esquerda, parece que ninguém se chocou muito com a denúncia. Uma pequena sabatina histórica vem a propósito. A violência do comunismo na Polónia, com dezenas de milhares de indivíduos assassinados, centenas de milhares encarcerados em "campos de reeducação" (o eufemismo comunista para campos de concentração), a perseguição aos camponeses, a perseguição à Igreja, as purgas anti-semitas, etc., faz do nosso salazarismo, por comparação, uma brincadeira de crianças. Qualquer "colaboração" com um regime deste tipo não pode, portanto, deixar de ser chocante.
No entanto, todo o processo da condenação pública do bispo, juntamente com o passado histórico do país, torna o episódio lamentável. A Polónia conheceu, a partir de 1989, uma espécie de transição pacífica (à espanhola, embora do outro lado ideológico) que deveu muito à negociação entre o poder comunista e a Igreja. A ideia era evitar a caça às bruxas. Mas parece que a direita dos gémeos Kaczynski, no Partido Direito e Justiça, decidiu que a hora era de purificar a Polónia dessas manchas (propositadamente deixadas cinzentas) do passado do país. Os gémeos misturam o neonacionalismo com um programa de costumes de inspiração religiosa e socorrem-se (para obterem autoridade moral) da lenda da resistência da Igreja ao comunismo. Uns quantos bodes expiatórios seriam suficientes para fortalecer essa autoridade moral, limpando ao mesmo tempo a Igreja de um passado obscuro. Acontece que a "colaboração" da Igreja com o comunismo passou muito além de uns simples traidores. Se é verdade que foi perseguida, também é verdade que, sobretudo a partir dos anos 50, conviveu, numa relação por vezes tensa, por vezes amistosa, com o regime. Num país onde 90% da população é católica, o comunismo ali instalado rapidamente percebeu como seria suicidário um embate frontal com a Igreja. Por isso propôs entendimentos, que foram recebendo resposta positiva do outro lado. Um bom símbolo dessa ligação ambígua está no episódio da tomada de posse de Bierut (o estalinista local) em 1947, em que o Partido Comunista pediu que fossem realizadas missas especiais e os sinos repicassem. A Igreja, de forma ambivalente, aceitou realizar as missas, mas recusou o toque dos sinos.
Acontece com os regimes comunistas o mesmo que acontece com os regimes fascistas ou aparentados: os adversários de um autoritarismo concreto não são eles próprios necessariamente antiautoritários em abstracto. A Igreja Católica polaca sempre viu com bons olhos certos aspectos do moralismo de costumes típico do comunismo e apoiou, por exemplo, a censura a livros ou filmes desde que achasse reprovável o seu conteúdo. Não se sabe que papel terá tido a Igreja na relação do regime polaco com outras religiões, como as Testemunhas de Jeová (que foram erradicadas) ou o judaísmo (que levou a uma purga antijudaica ainda nos finais dos anos 60). Mas se foi como na Roménia com a Igreja Ortodoxa, quando nos anos 80 Ceausescu destruiu inúmeras igrejas cristãs e o patriarca ortodoxo se manteve silencioso, então a caixa de Pandora ainda tem muito para oferecer. O anticomunismo da Igreja não significou o apoio aos regimes demo-liberais característicos da Europa no último meio século. Em certo sentido, estes até são piores para ela no seu poder secularizador e de dissolução da autoridade religiosa.
Os ajustes de contas históricos agora em voga têm o condão de nunca deixarem ninguém bem na fotografia. Nem direita, nem esquerda, nem sequer as religiões. Quem se mete neles está a entrar num campo minado de onde com dificuldade sairá também inteiro. E a lição serve para lá como para cá.
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