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João Fonseca
O autor é desconhecido, mas a notável fotografia que reproduzimos nesta página dá uma ideia de como era o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra em 1870, dois anos antes de completar o primeiro centenário. A imponente entrada e gradeamento parecem ser os mesmos, o piso de terra batida e algumas árvores também.
Diferentes são, por exemplo, os jardineiros, que, cerca de meio século depois, aparecem, noutra foto da exposição Transnatural (a inaugurar amanhã, pelas 16.00, no Museu Botânico da Universidade de Coimbra), ao lado de três investigadores, um dos quais Júlio Henriques, referência maior da vida e obra do jardim fundado pelo Marquês de Pombal.
De repente, o preto e branco dá lugar às primeiras cores da fotografia em Portugal. E a história, assim contada, do Botânico de Coimbra remete, outra vez e agora de forma mais acentuada, para o trajecto da fotografia. Logo a seguir, duas películas evidenciam a intervenção do pincel e tintas coloridas e os quadros assumem um ar mágico, surreal. Mas já antes o retoque no preto e branco havia surgido. A câmara nem sempre conseguia fixar uma linha, nem sempre deixava perceptível um pormenor e o autor introduzia o sublinhado com um traço seu, nem sempre tão discreto quanto isso. A ampliação dos originais permite essas e outras descobertas.
Transnatural conta "a história do Jardim Botânico da cidade, mas também a sua contra-história", isto é, o riquíssimo e emblemático espaço que é e aquilo que esteve para ser, os projectos que mereceu e as alterações sofridas. Mas não só. Este projecto sobre o Botânico percorre, como sublinha, ao DN, o seu comissário, Paulo Bernaschina, "áreas da ensaística, da literatura, das artes plásticas e do vídeo", perspectivando uma "linha de narrativa Transnatural, na qual arte e ciência, homem e natureza se reconciliam".
Este projecto converge para a realização de trabalhos sobre o Jardim Botânico, envolvendo os seus agentes, os seus espólios, as suas memórias, conjugando parcerias institucionais com meios exteriores ao universitário (da Cinemateca ao Centro Português de Fotografia, do Estabelecimento Prisional de Coimbra à Artez/Medicina e Arte, da Fila K ao Videolab). "É um processo orientado para a construção de um imaginário que coliga conteúdos científicos a conteúdos literários e artísticos", diz ainda Paulo Bernaschina, que nem a licenciatura em Filosofia conseguiu fazer com que abandonasse o lugar de jardineiro do Botânico de Coimbra, que mantém desde 1984. "A luz, enquanto matéria-prima, está bem presente nas minhas actividades profissionais", diz - como que explicando as suas opções e paixões, designadamente, pelo Botânico e pela fotografia. Além disso, Bernaschina preocupa-se com a preservação da memória e identidade, lamentando "certa insensibilidade para com o nosso património".
Neste projecto, "geneticamente indissociável do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra", há fotos, notáveis documentos - muito antigos e muito recentes -, mas também vídeos e, por exemplo, um livro (a lançar em simultâneo com a abertura da mostra) que vai muito para além da função de catálogo da exposição, que encerra a 4 de Fevereiro. Embora sempre sem perder de vista o Botânico, "as suas árvores, os seus muros, os seus sábios, os seus jardineiros". Até porque "esta iniciativa é constitutiva de um processo orientado para a construção dum imaginário que alia conteúdos científicos a conteúdos literários e artísticos", insiste Bernaschina.
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