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por
Maria José Nogueira Pinto
Jurista
"Não temais! Eis que eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador que é o Cristo-Senhor, na cidade de David..."
Foi assim que, há quase dois mil anos, se anunciou ao mundo a grande revolutio que irá mudar a face da terra e se procedeu à convocatória de todas as gerações de boa vontade para a Paz e a Concórdia.
Entre a candura da infância e a pesada nostalgia da idade adulta, nem sempre é fácil de entender esta história e os seus personagens e até a importância de alguns secundários que, contudo, contribuem de forma decisiva para o sentido final das coisas. É o caso do estalajadeiro que, não se tendo condoído com o estado de Maria, levou a que o nascimento de Jesus ocorresse numa manjedoura, última guarida encontrada pelo jovem e desamparado casal. E ainda daqueles três homens sábios, reis em suas terras, conhecedores de profecias e astrologia, atentos ao sinal, obedientes ao seu desígnio, que, munidos de presentes representando os símbolos exteriores do poder e da riqueza material, chegaram e, sem reacção ou espanto, homenagearam o Menino oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra.
A aparente contradição entre a pobreza extrema daquele nascimento e a rendição da sabedoria e do poder humanos é, de certo modo, a chave deste desígnio, traçado na cronologia matemática dos factos - o édito de César Augusto, o estalajadeiro mal disposto e de coração duro, os magos convictos e perseverantes, os pastores que montavam guarda aos seus rebanhos nas vigias da noite - a que se junta a dimensão de mistério -, os sinais astrológicos, a intervenção dos Anjos e o destino da Humanidade.
Hoje, milhões de homens celebram o Natal. Ou porque vêem nele o nascimento de Deus feito Homem, ou porque sentem que Cristo mudou pela obra de uma vida curta, atribulada, sofrida e ceifada pela crucificação o sentido das grandes linhas de orientação e comportamento vigentes no mundo de então.
Cristo veio para inquietar. Morreu por inquietar. Expulsou os vendilhões do templo, acusou os fariseus, abraçou Madalena, a pecadora, opôs-se à lapidação da mulher adúltera, levou consigo o ladrão arrependido e fez face a César em nome de Deus. Chamou os mais pobres, protegeu os mais fracos, redimiu os mais pecadores. Assustou os mais poderosos, os prepotentes, os que cometiam injustiças, os que oprimiam e prometeu confundir e cobrir de opróbrio todos os forjadores de erros.
Pregou uma terra onde não houvesse mais diferença entre senhor e escravo, cidadão e gentio. Devolveu ao homem, a cada homem, a maior dimensão da liberdade individual e colectiva, a da dignidade e a da redenção.
Mas Cristo trouxe também a esperança da revolutio, da transformação.
É por isso que todos os anos, nesta data, nos inquietamos primeiro e, num assomo de esperança, procuramos transformar, melhorar. Provavelmente não da melhor maneira, preocupando-nos de forma atribulada com as desigualdades, as injustiças, as exclusões. Compensando com isto ou aquilo uma menor atenção a tantas coisas erradas que hoje aceitamos como inevitáveis, com que nos conformamos. Tranquilizando uma consciência que o calendário foi adormecendo.
Procurando na partilha, nos gestos, nas coisas, nos mais próximos, na família ou nos que não queremos esquecer o melhor do que fomos e do que somos.
Aos que dizem que isso não vale, que é batota, direi que do meu ponto de vista este sinal, este sobressalto, ainda que efémero, e esta esperança são em si mesmos um milagre num tempo em que se banalizou o sofrimento, se consagrou a indiferença, se cortaram as amarras, se perderam as referências e se teorizou a injustiça.
E se o Natal serve para inquietar, cada ano, os nossos corações obrigando a algum rearrumar das nossas vidas, Cristo serve para isso mesmo e muito mais, todos os dias da nossa existência: uma porta que se abriu e nunca mais se fechará.
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