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De boas intenções...

por

Joana Amaral Dias

Psicóloga

genecanhoto@gmail.com  

Lê-se num cartaz da campanha do "não" ao referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG) que às dez semanas já bate um coração. Porque tomo a discussão sobre o aborto como séria e necessária, não posso deixar de debater esta mensagem, embora não seja esta a questão que vai a referendo. Independentemente da posição individual de cada cidadão sobre a IVG, o que vai ser referendado é a liberdade de escolha. Por isso mesmo, voto "sim2, independentemente da minha convicção pessoal.

A pergunta "Quando começa a vida?" é complexa e pode ser perspectivada sobre vários pontos de vista. Biológico, médico, jurídico, filosófico, ético, moral, religioso. E dão-se respostas opostas, contraditórias e interessantes em todos estes ângulos. Contudo, colocar no mesmo patamar a vida do feto e a vida da mulher é falacioso. Desde logo porque a vida da mulher é uma vida autónoma, enquanto a vida do feto é uma vida potencial. Tanto assim é que se o leitor imaginar que há um fogo numa clínica de fertilidade e que ou salva cem balões de ensaio - cada um com um ovo humano acabado de fecundar - ou salva um bebé recém--nascido, certamente que não hesitará.

Raros são os que se opõem totalmente à IVG. Já existem excepções previstas na lei - como o risco de vida para a mãe, a malformação grave do embrião ou a violação. Isto é, quase todos os defensores do "não" reconhecem que existem situações em que a mulher deve ter o direito de decidir. Perante o diagnóstico de malformação, muitos entendem que a mulher deve poder escolher. Ninguém concorda, porém, que temos o direito de matar uma criança com deficiências graves. E será que às dez semanas o coração de um filho de um violador não bate? Ou bate pior do que o coração de um filho do método contraceptivo que falhou?

Se os defensores do "não" equivalem a vida fetal à vida autónoma, deviam defender, sem tréguas ou excepções, não apenas o julgamento e prisão das mulheres ou casais que abortam, como a vigência de penas semelhantes ao infanticídio para tais criminosos. E talvez até preferissem salvar cem balões de ensaio.

Repito. A discussão sobre o começo da vida não vai a referendo. Mas se fosse, e posto que é um tema que não reúne consenso e que está atravancado com contradições, só poderia ser mais um motivo para conceder a liberdade de opção.


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