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Entreter é a palavra de ordem na hora de ver desenhos animados. A acção adquire outra força quando as crianças entram em período de férias, como o do Natal, a partir de amanhã.
Para a psicóloga Teresa Andrade, faz parte do desenvolvimento das crianças, aguça-lhes os sentidos. "Os mais novos reagem às cores fortes, à música, aos estímulos tridimensionais que os ensinam a relacionar-se com o mundo", explica ao DN a especialista, que vê no Noddy o exemplo mais bem conseguido. "Tem bons psicólogos por detrás, é um fenómeno."
Mas nem tudo o que os miúdos vêem tem a inocência de Noddy ou voluntarismo de Ruca. Os mais velhos procuram "diversão e modelos de interpretação da realidade". E aqui reside o perigo: "As crianças vêem TV em excesso, os pais acompanham-nas pouco, elas absorvem tudo de igual modo, sem perceber as diferenças." E se o Panda anuncia as séries, o Cartoon Network, "a que assistem por curiosidade, por ser fruto proibido", já não faz isso. "E tem desenhos muito violentos, como o Stupid Dog ou o Cow & Chichen", alerta. "É preciso ter cuidado."
Ciente dos excessos, também Rui Cádima, docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, defende a necessidade de investir os pais de um papel primordial no acompanhamento dos filhos enquanto espectadores.
Os tempos televisivos aceleraram nos últimos anos, a percepção e as imagens tornaram-se vertiginosas. Porém, "o que as crianças de hoje procuram é o mesmo que procuravam as crianças e jovens de antigamente, os valores são os mesmos", defende José Navarro de Andrade, coordenador da SIC Kids - o espaço que engloba todos os conteúdos infanto-juvenis da estação de Carnaxide. E, concretiza: "Continua-se a querer heróis que sirvam de modelo, o bem definido e a ganhar ao mal, actos positivos que divirtam e, ao mesmo tempo, sirvam de referência na vida real."
Atentas, as grelhas dos vários canais procuram responder à exigência dos públicos a que se destinam, do pré--escolar à adolescência. Diferentes nas suas especificidades e nos programas que seleccionam, acabam, todavia, por cruzar valores e estratégias de acção, temas, comportamentos e até mesmo séries e personagens.
"O facto de sermos uma estação de serviço público leva-nos a ter que dar especial atenção aos públicos jovens - a lei refere especificamente programas vocacionados para a formação, informação e bem-estar, que defendam a liberdade, a solidariedade e a compreensão. Mas tudo isso acaba por ir ao encontro do que as crianças procuram", sustenta Teresa Paixão, responsável pelo departamento de programas infanto-juvenis da RTP, nomeadamente o espaço Zig Zag (na 2.
A coordenadora reconhece a necessidade de "uma maior dedicação aos conteúdos pré-escolares, dado que os canais privados contemplam menos esta faixa etária". Ainda assim, diz, nada disso é impedimento. "As crianças procuram mais ou menos todas o mesmo, hoje como no passado. Faz parte do crescimento." Até aos quatro anos buscam a tranquilidade, a beleza, o colorido, "querem figuras e ambientes amorosos, calmos, musicais". Depois surge a procura da aventura, de uma certa irreverência, do humor.
"É natural que haja coisas que passem de moda, séries que caiam para dar lugar a outras. Mas haverá sempre uma identificação com os super-heróis", garante Teresa Paixão, ciente de que o seu papel na estação pública passa, em parte, por saber escolher "aqueles que dão a vida e não os que a tiram". José Navarro de Andrade concorda: "Os valores da animação mantêm-se, o que eu via com sete anos é o que a minha filha quer ver hoje."
E se o SIC Kids aposta "nitidamente em crianças mais velhas" do que aquelas que vêem Noddy, Bob, o Construtor ou Teletubbies, a verdade é que "tem de ter sempre em conta as diferenças de públicos para lhes dar resposta". É essa a tendência.
Segmentar para vencer
Os canais infanto-juvenis em geral, incluindo o Panda, Disney Channel, Nickelodeon e Cartoon Network, seguem uma lógica da segmentação. "A malha de penetração dos programas é mais fina, pensada em termos do género e faixa etária a que se destina", refere Navarro de Andrade, vendo nisso um sinal "da tal aceleração" da actualidade.
"As nuances são diferentes, a sociedade muda, mas as séries acompanham-nas", resume Teresa Paixão. E apesar de as crianças serem "muito mais maduras agora", conforme acredita a directora do Canal Panda, Isabel Mimoso, "na hora de definir a programação o que mais conta para nós são os valores positivos como a família, a amizade, a imaginação e o de-senvolvimento social e intelectual", assegura. Incontornáveis são também os princípios que regem os conteúdos do Nickelodeon. "Bonecos como o Spongebob, líder do canal, o Avatar, o Danny Phantom, a deslizar como um fantasma, ou o Jimmy Neutron, no seu foguetão de protões ionizados, são todos irreverentes, não violentos e inteligentes", frisa o responsável pela programação do canal, José Pedro Carvalho. Apostando nos clássicos da Disney que encantam gerações (Dumbo ou Bambi), em filmes como As Crónicas de Narnia ou Mary Poppins e em programas de criatividade, também o Disney Channel (canal codificado do cabo) faz a apologia da alegria, da família e da magia.
"A variedade da oferta de entretenimento infantil tem crescido muito. E as crianças só têm a ganhar com a diversidade dos vários canais, visto que podem optar e compor elas mesmas a sua grelha de programação", reitera José Pedro Carvalho, dando voz aos outros coordenadores (público e privados). "Acho que realmente existe uma complementaridade entre os canais infantis", apoia Isabel Mimoso, reconhecendo o público jovem como o mais difícil, por ser "curioso e ávido" de novidades. E, no fundo, "cada canal encontra o seu espaço."
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