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Portugueses recorrem menos ao crédito nas compras de Natal

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Céu Neves  

Os portugueses estão a usar menos o cartão de crédito no Natal deste ano do que em 2005, preferindo pagar os presentes com o cartão de débito, indicam os movimentos efectuados com o "dinheiro electrónico" nos primeiros dez dias de Dezembro. Juros cada vez mais altos e desconfiança no futuro são as razões apontadas para explicar esta opção.

"As pessoas têm medo, ainda esta semana foram anunciadas reduções dos postos de trabalho na função pública. Além disso, estão a fugir das taxas de juro elevadíssimas. Não disponho de dados para avaliar a situação globalmente, mas nota-se uma tendência para a redução do uso do cartão de crédito", diz Beja Santos, assessor do Instituto do Consumidor.

Aliás, já os dados do terceiro trimestre de 2006 do Banco de Portugal indicavam uma redução no recurso ao crédito, sobretudo no que diz respeito ao uso do cartão Visa (uma diminuição de 10,1% para 9,5%).

Comprar com dinheiro, mesmo que seja electrónico, parece ser o le-ma dos portugueses para as compras natalícias. Mas, mesmo assim, sem grandes loucuras. Nos primeiros dez dias deste mês, embora se tenha registado um aumento do valor total das transacções com multibanco (levantamentos e pagamentos directos), este não vai além do meio por cento. A subida deve-se a um maior recurso ao pagamento directo com o cartão, mais 1,7% - 795 milhões de euros em 2006, contra os 782 milhões em 2005. Nos levantamentos nas máquinas automáticas há um decréscimo do número de operações e dos valores envolvidos, 696 milhões este ano, contra 703 milhões no Natal passado. Os dados são da Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS).

A situação é inversa no que diz respeito à utilização dos cartões de crédito. Entre 1 e 10 de Dezembro, houve uma diminuição de 1% nas compras, quando em igual período do ano passado se tinha registado um aumento de 8,6%. E este é um mês "tradicionalmente forte nas compras por cartão", refere uma fonte bancária, sem querer revelar os números exactos.

Natália Nunes, responsável pelo gabinete de apoio ao endividamento da Deco, é cautelosa na explicação destes primeiros resultados. "Não tenho a indicação de que as pessoas se estejam a retrair em termos de endi- vidamento", justifica, admitindo, contudo, ser possível que os portugueses "estejam mais sensibilizados para as questões do sobreendividamento". Isto porque no seu entender, o aumento das taxas de juro também tem funcionado como um alerta para o problema das dívidas das famílias portuguesas.

Período alargado

Para os responsáveis da SIBS, só em Janeiro se poderá saber se os consumidores repartiram as compras por várias semanas, desde Novembro até à véspera de Natal, ou se vão gastar menos dinheiro nesta quadra.

Para quem trabalha com os sistemas de crédito bancário, "os portugueses parecem ter distribuído as suas compras ao longo de mais semanas", já que em Novembro houve um aumento de 7,7% nas compras a crédito face a Outubro.

Os dados da SIBS revelam que o aumento de transacções em Novembro - 1, 8 mil milhões - foi, no entanto, inferior aos 1,7 mil milhões de igual período de 2005. Registe-se que entre 1 e 25 de Dezembro do ano passado, o valor total dos movimentos do multibanco foi de dois mil milhões de euros, distribuídos por quase 44 milhões de operações bancárias, o que representou uma baixa de 9,8% relativamente ao ano anterior.

Beja Santos sublinha que um dos indicadores de que o negócio do crédito já teve melhores dias é a necessidade de uma maior pressão publicitária por parte das entidades credoras para a angariação de clientes: "O apelo ao crédito ao consumo é uma constante, desde a publicidade endereçada ao audiovisual."

Hesitação e incerteza

Os dados disponíveis sobre o consumo a crédito parecem confirmar os resultados de um inquérito internacional sobre as compras de Natal, realizado em Outubro pela Deloitte, uma empresa de estudos de mercado. Os portugueses pertenciam ao terceiro e último grupo de países, onde se encaixavam as pessoas cuja atitude dominante "era a hesitação e a incerteza", prevendo-se "despesas prudentes entre menos 1% e 2%".

Embora aquela despesa fosse uma das mais baixas apresentadas nos 15 países analisados, representava uma das maiores fatias comparativamente à percentagem de rendimento usada na compra de presentes, 4%. O que também demonstra o baixo nível salarial do País.

Cada agregado familiar pensava gastar uma média de 588 euros nas prendas, mais 1,6% do que em 2005, menos de metade que os irlandeses (1300 euros), os mais gastadores. Um terço deste dinheiro seria para a compra de brinquedos e roupas para as crianças.

No mesmo estudo, 61% dos portugueses esperavam já ter terminado todas as compras até meados de Dezembro.

Há mais de 16 milhões de cartões nacionais a circular pelo País, sendo que dez milhões são de débito e seis milhões são de crédito, segundo dados do Banco de Portugal.


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