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Silêncio, Carlos Saura vai começar a filmar 'Fados'

por

Leonor Figueiredo

José Carlos Carvalho (foto)  

Embora de poucas falas, Carlos Saura deixou expressas ideias sobre o filme Fados que começa a rodar a 8 de Janeiro. "Faço-o com o coração", começou por dizer o realizador septuagenário, que cedo conheceu a canção nacional, e lisboeta. "O fado acompanhou-me desde pequeno, sempre o ouvi cantar. Em Espanha toda a gente conhecia a Amália Rodrigues."

Memórias que deixarão marca no documentário que Carlos Saura quer "emotivo", para o qual estudou muito ( "e há tanto para ler sobre o fado..."), e no qual deixará flutuar várias teorias sobre a sua origem e diferentes aspectos culturais. O fado tem origem africana? Europeia? "O fado é uma das grandes invenções, conjunção de vários elementos que se cozinham em algo grandioso", sublinhou o realizador espanhol.

Confessando-se "não especialista" no assunto, mas completamente cativado pelas vozes e interpretações de Mariza, Camané e Carlos do Carmo, o realizador sente este filme como "uma aventura no vazio", um "risco". Só assim o concebe. "Senão, não me interessa fazê-lo", admitiu perante a audiência que o escutava ontem ao fim da tarde, no Palácio da Mitra, em Lisboa, durante a apresentação do elenco e guião de Fados.

No final da sessão houve um cheirinho de algumas imagens captadas por Eduardo Serra. Saura filmou Lisboa e as suas gentes, eléctricos e crianças a correr na rua, com o Fado da Saudade na voz de Carlos do Carmo em pano de fundo, mas onde também se vê o negro a estender roupa na varanda, o marroquino com uma espécie de djelaba (que também os há em Lisboa), e claro, as velhinhas à janela, os frequentadores das velhas tabernas, o gato junto à escadaria. É a Lisboa que conhecemos, com eléctricos, cacilheiros, o Castelo, guitarradas e muitos outros pormenores importantes nesta diversidade cultural.

Como tudo aconteceu

O representante dos produtores de Fados explicou que o trabalho "árduo e muito interessante" já rola há dois anos e tudo começou quando o próprio Ivan Dias filmava com Carlos do Carmo. "Falámos desta ideia do documentário, de fazer mais além, e um dia levei filmes do Saura para os vermos juntos. Daí foi um pequeno passo até falar com o Carlos Saura que imediatamente aderiu."

O que pretendíamos? "Queríamos fazer um Fados com uma visão documental, mas a visão do realizador. É o momento deste género se afirmar", observou Ivan Dias.

A novidade que anunciou - Caetano Veloso cantará à viola Estranha Forma de Vida e Chico Buarque fará uma adaptação do Fado Tropical - dará novos tons à canção de Lisboa captada como documento. "O guião está terminado há pouco tempo", adiantou o produtor. O filme será feito em estúdio, mas terá muitas imagens de Lisboa e a participação de muitos outros fadistas, uns mais, outros menos conhecidos.

Na cerimónia, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carmona Rodrigues, lembrou que o fado apanha hoje "novos públicos e intérpretes", "está presente nas salas mais prestigiadas do mundo" e por isso é candidato a Património Imaterial da Humanidade. Quanto a Amaral Lopes, presidente da EGEAC, acentuou Fados como "um bom enriquecimento cultural de Lisboa".


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