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por
Francisco Mangas
Na infância, durante as férias, ajudava a avó nos trabalhos do campo, algures na Roménia. Muitos anos depois, Sorin Dinca, longe do seu país, volta a pegar na enxada e no ancinho: decrua a terra, novo ciclo se avizinha. Mais à frente, vencidos os frios do Inverno, vai colher os primeiros frutos. Os produtos naturais, livres de pesticidas e adubos químicos, da sua horta biológica.
Sorin Dinca, 31 anos, é gestor numa grande empresa de lacticínios de Vila da Conde. A "nostalgia" dos tempos em que via a avó remover a terra, levou-o a candidatar-se a um espaço numa das oito hortas biológicas que a Lipor (Serviço Intermunicipal de Gestão de Resíduos do Grande Porto) abriu aos citadinos para mostrar os ciclos agrícolas - a memória harmoniosa da ruralidade.
Ao gestor romeno calhou-lhe um talhão na horta de Crestins, Matosinhos, para amanho nos tempos livres. Algumas vezes, promete, vai ter a filha como companhia. Aliás, iniciou esta aventura também para aproximar a filha, de três anos, dos segredos da natureza.
Domingo de manhã, cheio de sol, temperatura primaveril em pleno mês de Novembro. O desconserto metereológico talvez explique os morangos floridos nos talhões ao lado, onde despontam as ervilhas e as favas, sementeiras que o Inverno consente. Sorin inicia a limpeza do terreno , mas o pousio endurece os solos, seduz ervas daninhas. Em pouco tempo, o cabo da enxada marca as mãos do jovem horticultor.
"Hoje não trouxe as luvas", diz o romeno para justificar o súbito aparecimento de bolhas na palma das mãos. Além da evidente falta de ritmo no trabalho braçal, Sorin ainda não domina o gesto de cavador. A ajuda de um hortelão vizinho dissipa as dificuldades da primeira vez. No talhão, na devida época, vai semear beringelas, tomates, cebolas, cenouras, salsa, sem esquecer as plantas aromáticas.
A consociação de produtos num pequeno espaço agrícola é arte. Uma arte que se aprende. A Lipor, depois de ceder o terreno, dá formação aos horticultores: seis sessões, espaçadas, sendo a primeira sobre compostagem. Nas hortas biológicas está vedado o uso de produtos químicos, a fertilização faz-se a partir da matéria da compostagem - adubo natural, produzido a partir de folhas, aparas de relva do jardim, restos de comida e outro lixo doméstico.
Arte harmoniosa
Nas hortas há locais próprios para compostagem: aí, lentamente, o lixo transforma-se em adubo, em terra fértil, e reentra no ciclo da natureza. Sorin Dinca apreenderá depois, como todos os iniciados no cultivo da terra, que, por exemplo, junto às alfaces deve semear os alhos. É uma questão de boa e protectora vizinhança: a rama dos alhos cresce e forma uma espécie de rede, que impede os pardais de debicarem as tenras folhas de alface.
O jovem gestor ficará ainda a saber como se combatem os insectos nocivos sem fustigar a horta com pesticidas. Uma arte antiga, perfeita, harmoniosa: as plantas aromáticas afugentam os insectos indesejáveis. Por isso mesmo, em todas os talhões há alecrim, tomilho , alfazema, etc. Os cravos túnicos também "impedem a bicharada de entrar na horta". Quando os piolhos atacam as favas, se houver joaninhas por perto, a praga não alastrará. Como se cativam as caprichosas joaninhas, que comem os piolhos? Com alecrim. Na sebe desta planta aromática encontram abrigo seguro.
Beringelas e partilha
Gente de todas as profissões e de todas as idades, trabalha as hortas biológicas da Lipor. Alda Ferreira, 56 anos, empregada de hotelaria, vive no centro do Porto e não resistiu ao apelo da terra. Faz o primeiro cultivo este ano e apenas a distância a que a horta fica de casa é um obstáculo. Para o amanho da terra não carece de lições: Alda nasceu em Celorico de Basto e os pais retiravam dos campos o sustento para toda a família.
O convívio, a partilha de saberes e ficar longe da cidade apressada. Foi isso tudo que levou Joaquim Louro, 52 anos, formador numa escola técnica em Gondomar, a integrar a comunidade dos camponeses urbanos. Esperou três anos pelo talhão, agora está feliz, orgulhoso das suas beringelas, repartidas pelos horticultores vizinhos. A origem de Joaquim Louro, que percorre vinte quilómetros para "mexer com as mãos na terra", fica também no mundo rural. Nasceu em Tábua, distrito de Coimbra. "Nesta horta há múltiplos saberes, cada um de nós, com origens diferentes, traz para aqui os usos e costumes agrícolas das suas regiões".
O jardineiro António Costa, 43 anos, de igual modo não resistiu ao fascínio da terra. Vai a pé, há três anos, para a horta, é dos poucos que vive em Crestins. A ele, como é da arte, muitos companheiros recorrem, pedem conselhos. "Isto é como uma família, ajudamo-nos uns aos outros". António já semeou as ervilhas e as favas, "agora é a altura certa". E mostra-nos, também sem esconder o orgulho, os pés de penca destinados à "ceia de Natal".
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