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por
Paula Martinheira
Faro
Arrojado, controverso, irreverente, provocador e assumidamente diferente. Este é o Don Giovanni que o público algarvio vai encontrar no Teatro Municipal de Faro (TMF), na primeira ópera totalmente produzida e encenada no Algarve. A estreia foi ontem, realizando-se hoje, às 21.00, o segundo espectáculo, mas a produção poderá ainda vir a percorrer outras salas do País, nomeadamente o Teatro da Trindade, em Lisboa, e o Coliseu do Porto.
Paulo Matos, o encenador, e Osvaldo Ferreira, o director musical, asseguram que esta versão da obra de Mozart vai "surpreender", tanto do ponto de vista musical, onde se procuraram "novas sonoridades, dinâmicas e até alguns atrevimentos", como a nível da cena, que não é "barroca e convencional, como seria uma simples reconstituição histórica, mas sim atemporal, interveniente junto do público, alegre e provocatória, com jogos irreverentes".
"Don Giovanni é mais intenso se o soubermos escutar com um novo olhar", afirma Paulo Matos, justificando a leitura muito própria que fez desta personagem. E que personagem nova é esta? "É um indivíduo irreverente, que se transporta de uma forma muito forte, eficaz e provocadora para os nossos dias", sustenta o encenador. Se o público espera encontrar um Don Giovanni de bigodão, musculado e galante, como um verdadeiro macho à antiga, desiluda-se. É que o personagem que Paulo Matos criou é alguém bem mais subtil, "que faz parte da noite urbana, daqueles seres que se movimentam hoje de uma outra forma e cuja noção de engate, erotismo e sexo é muito mais diluída", sublinha.
"Em cada esquina há um Don Giovanni", argumenta Paulo Matos, considerando que "andam por aí a circular, cada vez mais nas nossas cidades, vencendo o seu próprio vazio através de uma avidez de conquista, sexo e poder". Opinião corroborada pelo maestro Osvaldo Ferreira, segundo o qual "todos nós calçamos, de vez em quando, os sapatos de Don Giovanni e gostamos de pisar o risco em muitas situações". "Esta leitura do Paulo Matos parece-me extremamente arrojada", refere o director musical, defendendo que "se há lugares onde esse risco pode ser tomado é numa sala como a do Teatro Municipal de Faro". "Penso que é mais fácil fazê-lo neste palco do que no São Carlos, no Covent Garden ou na Ópera de Paris", adianta, elogiando a "coragem do encenador pelo risco que assumiu".
A própria escolha dos intérpretes, considerados por Osvaldo Ferreira "do melhor que temos na nossa praça" (João Merino, Ana Ester Neves, Sandra Medeiros, Carlos Guilherme, Sara Braga Simões, Jorge Martins e David Ruela), segue a linha controversa e irreverente desta produção. "São quase todos jovens e urbanos." O próprio cantor que dá corpo à personagem principal da ópera, o italiano Nicola Ebau, que Paulo Matos classifica de "absolutamente maravilhoso", foi escolhido a dedo. É que, na perspectiva do encenador, "o Nicola contém por si só, na sua presença, no seu aspecto e olhar, uma componente contemporânea irreverente".
Os figurinos, da autoria de Esmeralda Bisnoca, não fogem a esta regra. Os intérpretes não estão vestidos à época, sendo ao mesmo tempo "realistas e simbólicos", segundo as palavras de Paulo Matos. "São realistas porque partem de uma matriz possível para com o nosso quotidiano (cada personagem tem uma peça de roupa contemporânea), tendo simultaneamente algo mais marcado, exagerado, sobretudo ao nível da cor e do desenho", explica o encenador, garantindo que "o público, por todos os motivos referidos, vai conseguir transportar-se para o íntimo das personagens".
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