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Filomena Naves
Raquel Melo nunca foi à Antárctida. Espera fazê-lo um dia, mas essa viagem de sonho não é para já. Falta-lhe andar muito ainda no seu percurso académico, e depois terá que ter uma boa oportunidade.
Apesar disso, e da distância geográfica de milhares de quilómetros, a jovem estudante universitária portuguesa, de 26 anos, é uma das poucas pessoas no planeta que conhece bem um pedacinho daquela imensa região gelada: a ilha de Livingstone, junto ao continente branco no extremo sul da Terra. Raquel está há mais de um ano a analisar e a tratar dados meteorológicos daquela ilha para tentar prever as zonas de permafrost, ou seja, de solo gelado. Um dos professores, Gonçalo Vieira, que esteve ali em campanha, no âmbito de projecto internacional, precisava da colaboração de alunos para o tratamento dos dados e ela viu ali uma boa hipótese de "fazer trabalho a sério". Não hesitou.
O tema pode parecer um pouco longínquo, mas o permafrost (na Antárctida, mas também no Árctico), e a sua relação com aquecimento global, é um dos temas fortes que vai estar em foco no Ano Polar Internacional (API), iniciativa que vai congregar as pesquisas e os esforços dos cientistas polares de todo o mundo, entre Março de 2007 e Março de 2009 (ver caixa).
A expectativa sobre o Ano Polar Internacional é que ele se torne um dos grandes acontecimentos científicos do início do século, e que permita aumentar o conhecimento sobre os pólos, e sua influência no sistema global terrestre, para um novo patamar. Foi isso que aconteceu, aliás, nas duas anteriores iniciativas deste tipo, em 1882 e em 1932.
Para o pequeno grupo de investigadores portugueses que há alguns anos trabalham sobre a biologia, a geomorfologia, a geologia, meteorologia ou climatologia das regiões polares, "este é também o momento para juntar esforços e afirmar as ciências polares no País", explica o professor e investigador da Universidade de Lisboa Gonçalo Vieira, que é também especialista em permafrost e um dos impulsionadores do Comité Português para o API 2007/2008. Este comité, um grupo de dez investigadores que há dois anos começou a preparar a participação nacional no Ano Polar, apresenta hoje, aliás, a estratégia científica que delineou (ver texto em baixo).
Raquel ainda não faz parte desta pequena comunidade de cientistas portugueses. Mas está a trabalhar para isso. E no âmbito do Ano Polar tem até um papel activo, já que é a representante nacional na rede internacional de jovens investigadores para o permafrost (Permafrost Young Researchers Network), cujo objectivo é a troca de informação e experiências, mas sobretudo a "construção" da futura geração de investigadores nesta área.
A jovem portuguesa é exemplo dessa geração. Ainda não concluiu a licenciatura - está a terminar Geografia na Universidade de Lisboa - mas já tem o caminho apontado para a investigação científica. O trabalho sobre a ilha Livingstone, espera ela, é só o princípio.
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