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Os martírios sem fim

por

Pedro Rolo Duarte

Jornalista

pedro.roloduarte@gmail.com  

Quando ouvi pela primeira vez o anúncio - "IC19 - Será que este martírio vai ter fim?" - recuei mais de 20 anos no tempo. Voltei aos meus 21 anos e ao romantismo absolutamente tonto que me guiava à época. O romantismo levou-me então a alugar um moinho às portas de Almoçageme, uma pacata aldeia entre Colares e a praia Grande, e a ir viver para lá, na ilusão de que ser jornalista significava não ter horários e, por conseguinte, poder fazer o trajecto Sintra-Lisboa sempre "contra o trânsito". Percebi depressa que não há trânsito "a favor". Nunca. O trânsito é algo que está sempre contra nós, e a faixa ao nosso lado rola sempre mais depressa do que aquela em que circulamos. Entendida esta lei da natureza e vivido na pele o drama daquela estrada, que eu naquele tempo nem sabia que se chamava IC19, rapidamente desfiz o equívoco, larguei o moinho e vim viver para Lisboa. Até hoje.

Vejo que o martírio de há 20 anos não passou. E que a pergunta lançada pelo DN e pela TSF tem em si algo de dramático: ao perguntarem "será que?", estão no fundo a admitir que... "pode ser que não". Concebem que há uma saída para aquele martírio - mas que ela pode pura e simplesmente não ser encontrada.

Ora, essa condição natural portuguesa é a mesma que por mim passa diariamente quando atravesso o martírio criado pela "invenção" do túnel do Marquês (a abertura do túnel acabará com o martírio do trânsito no eixo Amoreiras/Marquês?), o martírio da Avenida João Crisóstomo (tem 3 faixas mas só uma funciona durante o dia, e os polícias da esquadra que ali vive não se ralam nada com isso, mesmo quando o estacionamento em segunda fila é motivado, vejam bem, por uma escola de condução...), o martírio da Ponte 25 de Abril, da Av. 24 de Julho, do funil na Marquês de Fronteira junto ao Corte Inglés, o martírio, o martírio, o martírio...

... São tantos martírios numa só cidade. Nós cegos que sucessivamente se criam por conta dos projectos, dos sonhos e das incompetências de tanta gente a quem pagamos, mensalmente, pontualmente, o ordenado. O IC19 é um bom exemplo e a ideia do DN e da TSF tem o sinal positivo de aproximar o jornalismo dos cidadãos e das suas "vidas reais" - mas é dramático pensar que esse exemplo encerra em si o drama de um distrito que nunca mais se resolve. Porque nunca mais começa a ter culpas e culpados, responsáveis e responsabilidades. Apenas impunidade à solta. Remunerada, claro.


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