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Prémio paga salário para manter físico na equipa

 

Helder Maiato lidera uma equipa de sete investigadores que recebeu esta semana o Prémio Crioestaminal em Investigação Biomédica. A distinção vai para um projecto de investigação que quer usar uma tecnologia inovadora para estudar a divisão celular, processo essencial para a vida humana e cuja desregulação pode levar a variadíssimas doenças. Este projecto, também apoiado pela Gulbenkian e pela FLAD, vai começar agora a tentar dar respostas a um dos problemas da biologia mais antigos, mas ainda sem teoria sólida e fundamentada.

O que homenageia este prémio atribuído pela Associação Viver a Ciência?

Premeia sobretudo uma ideia, uma abordagem.

Uma nova forma de fazer ciência?

Uma nova forma de responder a um problema que foca a atenção dos biólogos: a divisão celular. Vamos combinar várias tecnologias aplicáveis a células vivas para compreender os mecanismos moleculares, na base da divisão celular.

Quando se fala em divisão, estamos a falar de reprodução?

Sim. A célula passa por um ciclo de preparação em que duplica a informação genética. Depois divide-se em duas células-filhas. A fidelidade deste processo depende de vários factores e várias moléculas. Quando não funciona, há uma distribuição desigual de informação genética, a chamada aneuploidia. Esta é uma característica de vários tumores. O que vamos tentar perceber, com recurso à tecnologia da microcirurgia laser, é de que forma a divisão celular falha e que implicação terá isso nas divisões futuras das células. Isto é importante para o conhecimento da biologia de vários tipos de cancros.

Será então um projecto importante para tratar doenças?

Não é só importante para compreender a doença. É importante para conhecer a vida. Nós somos o que somos porque uma única célula se dividiu em duas, e cada uma em outras duas e por aí fora.

De que forma o vão fazer?

Para além de ferramentas moleculares, vamos introduzir uma nova abordagem baseada na microcirurgia laser. Com esta técnica, conseguimos apontar o laser - direccionado através de um microscópio e de várias componente ópticas - para células vivas. Isso vai-nos permitir uma micromanipulação dentro das células para perceber como os cromossomas se movem, que estruturas celulares estão envolvidas e como se organizam de forma a que o processo ocorra sem erro.

Há quanto tempo iniciaram a investigação?

Estamos a funcionar há um ano e meio. Há um mês, montamos o sistema-base que nos vai permitir aplicar a tecnologia.

Esta abordagem é comum no panorama científico da Europa?

Que eu tenha conhecimento, não há mais nenhum laboratório a trabalhar para este objectivo e por isso era uma prioridade e vantagem para nós experimentar a tecnologia. É certo que qualquer outro grupo que reúna as pessoas certas conseguirá fazer isto.

De que forma poderá a vossa investigação ajudar, no futuro, a desenvolver novas terapias contra o cancro?

Ao perceber como as moléculas guiam o processo da divisão celular, estamos a identificar potenciais novos alvos terapêuticos, com aplicabilidade no domínio do cancro, que se caracterizam pela divisão descontrolada de células. Ou seja, podemos actuar selectivamente sobre o processo que está na base de alguns tipos de cancro.

Para quando podemos esperar primeiros resultados?

Isto é um processo contínuo. Teremos os primeiros resultados quando pudermos começar a realizar as experiências, porque as perguntas estão identificadas. Penso que dentro de dois a três anos teremos concluído o tempo de incubação do processo.

O prémio vai ajudar na investigação?

Vai sobretudo ajudar a manter uma das pessoas da equipa, um investigador em física, que foi determinante no projecto. Criar esta tecnologia de laser não está ao alcance dos biólogos e para compreender a vida são precisos meios. Para isso, precisamos de um físico e com o prémio vamos poder pagar-lhe mais um ano de salário. Ter equipas multidisciplinares não é reconhecido em Portugal pelas entidades que financiam a ciência. Não é um factor prioritário na selecção. Assim, o nosso físico, para ter um apoio individual, teve de concorrer com biólogos (que é a disciplina central do projecto) que, por norma, têm médias mais elevadas. Ficou excluído. É pena, porque acredito que os maiores desafios estão no interface das ciências.


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