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por
Fernanda Câncio
MARIA JOSÉ MARGARIDO, 1972-2006
"Um dia alguém numa grande cidade longínqua dirá que morri
di-lo-á certamente com pena mas sem o alívio que eu próprio decerto senti (...)
Era como eu esperava mas não posso dizer-vos nada
pois tendes ainda o problema e a cara da pessoa viva"
Ruy Belo
Trinta e quatro anos. A Zé tinha 34 anos. Repetir isto até fazer sentido. Não faz. Falemos então daquilo de que podemos falar. A Zé era jornalista. Entrou no DN em 1994, como estagiária. Vinha do curso de Ciências de Comunicação, da Universidade Nova. Começou na secção de Política Nacional, depois trabalhou na área de Educação durante oito anos, foi editora adjunta da secção de Sociedade de 2002 a 2005. Saiu da editoria para poder escrever, fazer reportagem, respirar o ar da rua. Era assim o nome do blogue que partilhava com três amigos: Respirar o mesmo ar. O último post, escrito já do Chile, foi: "Nunca estive fisicamente em Lisboa, não."
Estamos fisicamente onde nos sentimos estar. Talvez a Zé tenha sentido estar mais ali, no Chile. Na Patagónia chilena, depois da Patagónia argentina, onde passou férias há dois anos. Num lugar extremo, no extremo do mundo, sentir então, numa espécie de revelação feliz, a certeza de existir.
Foi sobre coisas que supostamente não existem que a Zé fez a última reportagem para o DN, publicada a 5 de Novembro. Sobre assombrações, levitações, memórias corporalizadas, colchões e campos de milho que pegam fogo, cadeiras que voam, portas abertas e fechadas no silêncio da noite, remorsos e crimes por expiar. "Não são as casas que estão assombradas, são as pessoas", disse à Zé uma das entrevistadas.
Uma das suas frases favoritas, do A Sangue Frio de Truman Capote, falava disso, da assombração que fica do inexplicável: "Tal como as águas do rio, ou os motoristas da auto-estrada, ou os comboios amarelos que correm nas linhas de Santa Fé, o drama, sob a forma de acontecimentos extraordinários, nunca ali tinha parado." A Zé deve tê-lo sentido assim, exactamente assim, quando desceu os degraus da estação de Atocha dois meses depois do atentado de 11 de Março e o vento dos milhares de velas pelos mortos lhe despenteou o cabelo e as lágrimas. Cá fora, à volta da estação, lera os perfis dos caídos, encarara os rostos nas fotos ainda nítidas, o apelo repetido em cada texto, como uma prece: "Não acaba o que morre, mas o que se esquece." No texto que escreveu sobre Atocha, a Zé guardou, como um soldado dessa guerra, as palavras de uma madrilena, Mercedes. "'Passo pela estação de Atocha todos os dias. E leio sempre o perfil de uma das vítimas. Ainda me faltam muitas vidas.' Retira um papel amarrotado da mala e aponta: Alois Martinas, 27 anos, emigrante da Roménia. Tinha como planos viajar, tirar a carta de condução, passar férias em Cádiz, casar e ter uma criança..."
Tudo somado, o que um jornalista faz - se for a sério, e a Zé era - é decifrar vidas. Não há mais nada. E faltavam muitas, demasiadas.
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