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Daniela e o filho Raul, nomes fictícios, vivem no Centro de Acolhimento Pedro Arrupe, na Ameixoeira, há quatro meses. Fugiram de um clima de guerrilha e maus-tratos e, de início, mal falavam com os outros utentes. Agora, são quase uma família.
Daniela, uma bonita brasileira de 26 anos, imigrou há dois anos. Casou há sete anos e os primeiros quatro, vividos no Brasil, correram bem. O marido era animador cultural e ela nunca suspeitou do ambiente de terror que viveria em Portugal. "O meu marido não me deixava trabalhar, nem sair de casa. Insultava-me. Os homens eram meus amantes. Disse-lhe que voltava para o Brasil e começou o tormento. Trancava-me. Dizia que eu não era ninguém, que estava ilegal. Escondeu-me os documentos. Batia-me. Apertou-me o pescoço até eu desmaiar", conta.
Justifica a atitude do companheiro com o facto de ter arranjado outras mulheres. "Descontrolou-se. Não sabia como resolver a situação", desculpa-o. E foi um encontro com "a outra" que a fez colocar um ponto final. "Fiz as malas e disse-lhe que não queria saber dele. Ameaçou-me com uma faca. Dizia que eu podia ir à polícia, mas prendia-me o filho. Ainda fiz queixa, só que não ia embora sem o menino." Finalmente, conseguiu contar a uma amiga e foi a patroa desta, jurista, que a ajudou a definir uma estratégia.
"A advogada disse-me que eu tinha de ter os documentos. Fui bem cínica com ele, disse-lhe que já não queria separar-me e ele mostrou-me onde estavam . Há seis meses que não via o meu passaporte. Um dia, ele não trancou a porta e fugi com o meu filho e os documentos. Fui à APAV e encontraram-me este local", conta.
Daniela trabalhou um mês e meio. Pagaram-lhe com atraso o primeiro mês e saiu. O menino visita o pai aos fins-de-semana e este dá-lhe uma mesada. E já deixou de "fazer escândalo" sempre que ela lhe leva o filho.
Entre-ajuda
Daniela diz que todos se ajudam no centro. Hoje, leva a almoçar o filho e os gémeos de Mariana Baba, uma guineense que veio há três anos para tratar a menina. As crianças partilham um banco do autocarro e trocam pedidos. Ela diz que sim: "Quando ganhar o euromilhões".
Os medos dos imigrantes por irem viver para um bairro social em Lisboa habitado por ciganos, desvaneceram-se. Os seguranças nocturnos do centro são ciganos e as duas comunidades respeitam-se. A hora de recolher é às 22.30 e a alvorada às 6.30, mas cada residente ocupa e cuida do seu espaço como entende.
Ao meio-dia dirigem-se todos para o refeitório das irmãs S. Vicente de Paulo, no Campo Grande. Almoçam e levam o jantar e as refeições dos fins-de-semana em caixas de plástico. "Montámos o refeitório em Maio do ano passado. Temos uma escola com crianças pobres e um refeitório grande para toda a comunidade. Resolvemos ajudar os imigrantes, servimos 50 por dia e temos o apoio do Banco Alimentar", explica a irmã Celeste, a directora do espaço, a quem os utentes chamam "anjo".
E o futuro?
Daniela está a tratar do processo de divórcio, para ficar com a guarda do filho. Também pretende obter um mensalidade maior do pai da criança, que diz ter bons rendimentos.
Ela veio para Portugal com um visto de turista de três meses e está irregular. Agora, já não poderá legalizar-se ao abrigo do reagrupamento familiar, porque a família se desfez.
Uma das hipóteses de Daniela se regularizar seria através do filho. O pai de Mateus está legal e podia legalizar a criança ao abrigo do reagrupamento familiar. Mas sabe que esse facto permitiria à ex-mulher oficializar a sua situação, por isso, recusa-se a fazê-lo.
Os juristas do Serviço dos Jesuítas para os Refugiados, responsáveis pelo centro onde vive Daniela, estão à espera das excepções da nova lei da imigração, para que ela obtenha uma autorização de residência. Mas o diploma ainda está em discussão.
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