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por
José Medeiros Ferreira
jmedeirosf@clix.pt
Professor universitário
A semana foi fértil em acontecimentos. Santana Lopes lançou o seu livro com êxito, e Cavaco Silva deu a sua primeira entrevista televisiva a Maria João Avilez. Ambos apareceram na pantalha à mesma hora, numas post-primárias deveras prometedoras.
Os acontecimentos que sacodem a banca portuguesa também mereceriam realce dada a convergência de pesquisas nacionais e internacionais que se abatem sobre ela, acrescida de uma súbita vigilância dos poderes públicos. Ficará para mais tarde uma análise sobre os diferentes pactos de justiça nacionais e internacionais, caso continue a haver matéria disponível.
Hoje vou, porém, dedicar o meu artigo ao desaparecimento de Mário Sottomayor Cardia, aproveitando a dimensão histórica do jornal onde escrevo, pois o Diário de Notícias prolonga o nome a vida das personalidades impressas nas suas páginas. É o meu contributo para a imortalidade possível de alguém que corre o risco de se esbater nesta sociedade de espectáculo.
Conheci-o em 1960 na Faculdade de Letras, quando ainda usava o nome do pai, o médico Mário Cardia, assumido monárquico tradicional do Porto, que me apresentou com o carinho de quem respeita o percurso das ideias pelas vias do afecto, essa sua dimensão escondida.
De certa maneira, representávamos duas maneiras de cursar Filosofia, uma licenciatura que se revelaria um deserto. Eu vinha sem doutrina fixa, Cardia afirmava-se da escola do positivismo lógico, antes de passar para um marxismo crítico de quem continua à procura. Em breve nos envolvíamos em discussões, à margem das aulas, sobre ideias e projectos políticos. Levou-me então com ele para uma extensão das Juntas Patrióticas, que se reuniam em casa da Fiama Hasse Pais Brandão para preparar já não sei que levantamento popular. A composição do grupo é que me parecia mais uma moderna arcádia de jovens intelectuais do que uma façanhuda brigada anti- -salazarista. Lembro-me de por lá ver o malogrado João Passos Valente, a criativa Luísa Ducla Soares, o poeta Gastão Cruz, e outros e outras muito apressados no derrube da ditadura sim, mas para não gastarem mais tempo com essas questões imediatas da política. Era o tempo dos problemas urgentes e dos problemas importantes... Mesmo assim, ainda nos mobilizámos para uma manifestação na Avenida da Liberdade, de protesto contra as prisões efectuadas no seguimento da campanha eleitoral e do programa para a democratização da República em Novembro de 1961, capitaneados pelo Cardia, cuja coragem física contrastava com um corpo franzino e uma saúde frágil. A carga de polícia foi só um baptismo da pancadaria que o regime salazarista reservava aos seus juniores oponentes logo ali no virar do ano, em 1962, durante a crise estudantil. Embora o Mário Cardia me tivesse passado a pasta da Pró-Associação de Estudantes de Letras, teve um papel activo nessa crise, oferecendo-se para fazer a greve da fome no mês de Maio, o que lhe valeu a expulsão da Universidade de Lisboa.
Encontrei-o em 1965 nas listas de unidade da Oposição Democrática encabeçadas por Mário Soares. Como o nosso programa propunha uma solução política para a questão colonial dez anos antes de essa evidência se ter generalizado, fomos insultados por tudo quanto era gente entendida na matéria. Entretanto, o Sottomayor Cardia ingressava na redacção da revista Seara Nova e eu partia para o exílio.
A ele devo ainda a insistência para colaborar naquela revista, como depois deverei o interesse dele para a minha entrada na universidade. Foi em Genebra que tomei conhecimento das violências sofridas por ele na PIDE/ DGS, e que podem muito bem ter estado na origem de alguns problemas traumáticos que se revelaram mais tarde. Também estivemos juntos no período crucial de 1974-1976, onde mais uma vez a coragem e a lucidez do Cardia o levaram a denunciar, dentro e fora da Assembleia Constituinte, as derivas antidemocráticas no período revolucionário. E foi ministro como foi cidadão e universitário, prescindindo da pompa, mas aceitando servir as circunstâncias.
Sottomayor Cardia deixa ainda uma obra escrita que merece recolha, estudo analítico e reflexão pública.
É possível que essa obra se ressinta aqui e ali de um isolamento pessoal progressivo perante o que ele denunciou como o "atrofiamento da democracia" em Portugal.
O Cardia que eu conheci não se rendeu nem aos valores nem aos interesses instalados.
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