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por
Francisco Sarsfield Cabral
Jornalista
"O cristianismo não implica um conflito inevitável entre a fé sobrenatural e o progresso científico." Estas palavras do Papa Bento XVI, pronunciadas na semana passada, passaram despercebidas entre nós. Não parecem trazer novidade, até porque o actual Papa tem repetidamente valorizado a racionalidade humana, em particular a de raiz grega, enquanto património da própria mensagem cristã.
Só que no passado Verão levantou-se algum alvoroço em torno de uma eventual rejeição, pela Igreja Católica, da teoria da evolução de Darwin. Bento XVI reunira em Castelgandolfo, a sua residência de Verão, alguns antigos alunos para, com a ajuda de peritos, debaterem o tema "evolução e criação".
Ora um artigo do cardeal de Viena no The New York Times em Julho de 2005 e duas declarações de Joseph Ratzinger nesse mesmo ano haviam levantado suspeitas de que a Igreja Católica poderia vir a reabrir um conflito com o evolucionismo de Darwin. Conflito muito aceso nos Estados Unidos, mas por parte de algumas igrejas protestantes, que reclamam a proibição do ensino das teorias de Darwin nas escolas ou, pelo menos, querem o ensino simultâneo do "criacionismo".
No mundo católico esse problema existiu em tempos, sem dúvida, mas parecia há muito superado. João Paulo II, por exemplo, dizia em 1985 que "uma fé na criação rectamente compreendida e um ensinamento rectamente compreendido da evolução não geram obstáculos". O mesmo João Paulo II reconheceu explicitamente o carácter científico da teoria da evolução.
Com Bento XVI não há, afinal, qualquer mudança nesta matéria. O artigo do cardeal Schönborn, arcebispo de Viena, e as declarações de Bento XVI acima referidas haviam sido mal interpretados por alguns. Não se punha aí em causa o darwinismo, apenas se chamava a atenção para o papel de Deus na criação, que está para além do plano científico.
Quanto à reunião de Castelgandolfo, as especulações verificaram-se infundadas. Como explicou o prof. H. Noronha Galvão (um dos participantes na reunião), trata-se de uma questão de sensatez distinguir entre diversos tipos de racionalidade: o conceito cristão de criação não é de ordem científica. Pertence a outro âmbito de racionalidade, "é um conceito teológico com implicações filosóficas" (Público de 10.09.06).
Os adversários da teoria de Darwin avançaram recentemente com ideias que já não decorrem de uma interpretação literal da Bíblia nem rejeitam totalmente a evolução. É o chamado "desígnio inteligente", para o qual a formação de certas estruturas complexas não pode ter acontecido apenas por causas naturais, antes exigiu intervenção divina.
Mas continuamos no domínio da insensatez. Como todas as teorias científicas, o evolucionismo não é a verdade absoluta e definitiva - pode ser substituído por uma teoria melhor, se ela aparecer. Assim, se o "desígnio inteligente" é uma teoria científica, então tem de provar cientificamente que Darwin está errado. Ora tal prova não foi feita. As afirmações dos seus defensores situam-se num plano extracientífico.
A Igreja Católica errou ao condenar Galileu e não irá repetir o erro. Cabe-lhe, naturalmente, sublinhar que a ciência não explica tudo, nem porventura o mais importante na vida. A filosofia e a teologia colocam-se noutro plano, o da realidade no seu todo. E a fé religiosa é ainda outro patamar de conhecimento.
Inversamente, não pode a ciência arrogar--se competência para se pronunciar sobre esses outros planos da realidade. Por exemplo, ela nada nos pode dizer sobre a existência, ou não, de Deus. Seria Galileu ao contrário...
Acontece que alguns cientistas (a começar por Darwin) cedem à tentação de ultrapassarem o seu âmbito de racionalidade. É o chamado cientismo, que não é ciência, mas má filosofia disfarçada de ciência.
Um não crente como Ronald Dworkin compreende isto muito bem. O cientismo, escreve ele na The New York Review (02.11.06), "defende que não existe nada que não possa ser medido e explicado por métodos das ciências físicas e biológicas, de maneira que amor, beleza, bondade e liberdade devem ser ilusões. O cientismo é, de facto, dogmático". É errado afirmar, acrescenta Dworkin, "que as explicações científicas são as únicas respeitáveis ou que nada existe para lá do que a ciência pode demonstrar".
Há que saber distinguir entre os vários planos de racionalidade. Não o fazer é embarcar em guerra inúteis e insensatas.
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