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por
Paula Sá e Fernando Madaíl
Sozinho. "Sem ressentimentos" ou vontade de "ajustar contas". Apenas "orgulhoso" pelo dever cumprido de contar "os factos" sobre o que de "obscuro" aconteceu no final de 2004 e que conduziu à queda do seu Governo. "Alguns dos que tiveram um papel activo nesse momento desempenham cargos de altíssimo relevo em Portugal", afirmou Santana Lopes no lançamento do seu muito aguardado livro Percepções e Realidade.
No intimismo do Grémio Literário, em Lisboa, o ex-primeiro-ministro resistiu mal às investidas dos jornalistas, quando o questionaram sobre se Cavaco Silva, nos bastidores, foi a verdadeira pedra na engrenagem do seu malogrado Executivo. "Cavaco foi um protagonista muito importante nesse período", acabou por admitir. E pediu, várias vezes: "Leiam o livro, com a mesma serenidade com que o escrevi."
Santana, maestro de um meteórico Executivo de apenas quatro meses de vida, deixou sarar parte da "ferida" para falar do "golpe nas instituições" dado pelo então presidente da República, Jorge Sampaio, ao dissolver um Parlamento que reunia maioria PSD/CDS. "Prestou um péssimo serviço ao País." Na sua opinião, "essa ferida aberta em 2004 gerou um precedente que não se sabe quando poderá voltar a ser utilizado".
Na conferência de imprensa - convocada quase de surpresa durante a manhã, sem convidados especiais, amigos pessoais ou políticos -, aquele que também foi presidente de duas autarquias tentou afastar a ideia de que subscreve a teoria da "conspiração" ou uma postura de "vítima". Santana sabia que essas duas palavras espreitavam o lançamento da obra. No fundo acabou por caucionar as duas, sem as assumir. "O que se passou foi política. Uma convergência de interesses que levou a que fossem eleitas para cargos, alguns que eu até assumi, pessoas que me contestaram, no exercício das minhas funções."
Ali, perante tantos jornalistas, os interesses e os nomes ficaram por revelar. A conjugação de factores - eleições legislativas, autárquicas e presidenciais - permitiu chegar ao nome dos tais eleitos. José Sócrates, Carmona Rodrigues (que foi seu número dois na Câmara de Lisboa e que recebeu a bênção de Marques Mendes para se antecipar na corrida a Lisboa) e Cavaco Silva. É precisamente este último nome, a par do do comentador político Marcelo Rebelo de Sousa, um dos que Santana envolve na urdidura contra o seu Governo, nas 400 páginas escritas.
"Cometi vários erros e assumo- -os. Mas nenhum deles era motivo suficiente para dissolver o Parlamento." E até comparou a performance do Executivo que Durão Barroso lhe entregou em mãos com a de José Sócrates. "Os indicadores de 2004 eram os melhores de há cinco anos", garantiu.
Santana disse ter encerrado um "capítulo" da sua vida política com o livro, mas recusou-se a fazer projecções de futuro. "A vida é cheia de surpresas para todos", profetizou. Zita Seabra, directora editorial da Alethêia, é que não teve dúvidas: "Vai ser um best-seller!"
Sampaio aguarda História
O ex-PR não quis comentar, mas fonte do seu gabinete afirmou: "Se a História tem o direito de nos julgar, então o futuro merece-nos serenidade, factualidade e verdade. E a combinação destes cuidados não pode estar à mercê de improvisos."
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