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por
João Lopes
na quarta-feira, no Estádio da Luz, o Benfica obteve uma magnífica vitória sobre o Celtic de Glasgow (3-0), desse modo relançando as suas hipóteses de passagem à fase seguinte da Liga dos Campeões. Entre as memórias do jogo ficaram os festejos finais: no meio das celebrações dos benfiquistas, adeptos do Celtic aplaudiam com a alegria salutar de quem, mesmo na derrota, participava na festa.
Numa imagem muito breve era mesmo possível ver alguns apoiantes escoceses a viraram-se para o lado e para trás, cumprimentando os adeptos do Benfica. Era uma daquelas imagens que condensava o gosto simples, mas essencial, de fruição do espectáculo desportivo. Perder ou ganhar? Há coisas mais importantes.
A imagem era, de uma só vez, tão singela e tão forte que justifica que questionemos algumas opções correntes da informação televisiva. De facto, não é preciso muito esforço para compreender que a regra televisiva em relação ao futebol (e não só...) é a do sublinhado redundante. Mais do que isso: tudo aquilo que possa suscitar algum conflito clubista e pueril (por exemplo, uma grande penalidade "bem" ou "mal" assinalada) serve muitas vezes de matéria para disparatadas repetições que adquirem, literalmente, mais importância informativa que as tensões no Médio Oriente ou a corrida da Coreia do Norte ao nuclear. Ainda recentemente, a troca de mimos entre os presidentes do Benfica e do Porto foi, ao longo de uma semana, transformada em premente questão nacional.
Ora, que fazem as televisões com a saudável convivência dos adeptos de Celtic e Benfica? A resposta é simples: ignoram o assunto. Daí que o continuado discurso jornalístico (?) sobre a atenção à realidade e o primado da verdade não passe de uma obscena desculpa para alimentar as boas consciências. De facto, a realidade não se oferece numa bandeja: qualquer olhar é selectivo. Além do mais, mesmo sem invocarmos as dúvidas primitivas de Platão, sabemos que a verdade é sempre uma construção que responsabiliza qualquer narrador.
Enfim, se uma minoria de espectadores do jogo no Estádio da Luz tivesse armado alguma zaragata, teríamos uma semana de incessantes repetições das respectivas imagens... Sempre em nome da objectividade, claro.
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