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por
José Medeiros Ferreira
Professor universitário
jmedeirosf@clix.pt
O Partido Socialista reúne-se em congresso brevemente. Essa reunião acontece quando o PS está calmo e o Governo agitado. Ou seja, se em termos partidários não é de esperar algo mais do que o reforço de José Sócrates como líder, já em termos do rumo da governação muito haverá a discutir.
Há cerca de ano e meio que este Executivo governa com a maioria absoluta saída da dissolução da AR em pleno período das "trapalhadas" de Santana Lopes e de uma política governamental gizada em clima de descontracção que muito enervava os poderes fácticos em Portugal.
As eleições legislativas de 2005 deram aos eleitores a oportunidade de se desembaraçarem do sucessor de Durão Barroso. Ganhou José Sócrates com maioria absoluta. Em breve este seria um primeiro-ministro que alguém classificou como "destemido".
Tudo se conjugou para a formação de um Governo de combate: os motivos pelos quais o Presidente da República Jorge Sampaio tinha dissolvido a Assembleia, as expectativas dos grupos de influência que tinham decretado o fim da experiência Santana, a personalidade afirmativa de José Sócrates e a existência de uma maioria absoluta monopartidária, o que se não verificava desde 1991. Não havia outra alternativa que não fosse inaugurar um novo ciclo político.
Começar pela dramatização do estado das finanças públicas era algo que estava implícito desde o discurso de posse do Executivo de Santana Lopes, quando Jorge Sampaio fixou a este um mandato de sacrifício para ultimar a legislatura. Ora os mandatos de sacrifício recebem outra pujança lógica no início destas. José Sócrates contrastou vivamente com o seu antecessor, e por aí com os outros antecessores no Governo e no partido. Nem as duas derrotas partidárias consecutivas que se seguiram para as autárquicas e para as presidenciais afectaram o Governo ou foram tidas como tiros de aviso à governação. A direita moderna achou mesmo que o melhor par político para a estação Outono-Inverno seria o constituído por Cavaco Silva na Presidência e José Sócrates à frente do Governo.
O Governo começou bem em quase tudo, embora com uma tendência para flexibilizar o Estado de direito, o que não foi um bom sinal. Criou um estilo de decisão e de informação e depois viciou-se nele. Quase todos os membros do Governo quiseram parecer-se com José Sócrates: determinados, rápidos e ríspidos. Para quem sabe que a natureza gosta de diversidade, este Governo de uniforme terá destino pendular. Enquanto o ataque às "corporações" escondesse o objectivo principal de compressão de despesas tudo iria funcionar bem. Depois, com centenas de milhares de pessoas atingidas por essas medidas, seria difícil manter a tese parapopulista do ataque às classes privilegiadas. A passagem das farmácias e dos juízes para os professores e para a função pública foi demasiado rápida.
Surgiram então os ideólogos da moderna direita a quererem forçar a mão do líder da esquerda moderna. Tendo ganho as presidenciais, estimularam o Governo assente na maioria do PS não só a encetar um conjunto de reformas que nem Cavaco Silva, nem Durão Barroso, nem Santana Lopes ousaram (como a da uniformização (por baixo dos sistemas da Segurança Social) mas também a entrar numa luta sem quartel com as organizações sindicais. Embevecidos pela imagem de um primeiro-ministro determinado e popular, alguns governantes aceitaram aparentemente essa tarefa. Ora muito mal iria um Governo da esquerda moderna que deixasse como obra o desmantelamento do movimento sindical, num país com poucos corpos intermédios e com uma opinião pública muito oscilante na base. Seria uma dádiva para todos os populismos que espreitam.
Há dias numa matéria sobre o próximo congresso do PS, F. Diogo e N. Saraiva garantiam-nos no Expresso que "quem conhece José Sócrates assegura que ele não perdoa a quem desafia a sua autoridade". Imagino o choque cultural que a leitura desse artigo causará numa Europa órfã de líderes. Que jornalista britânico acharia natural descrever Blair assim? Ou um espanhol a antecipar dessa maneira o congresso do PSOE? E como conceber que em França não se interrogue François Hollande sobre o regabofe oficializado no PSF com três candidatos a candidatos presidenciais, num desafio múltiplo à sua autoridade pessoal e conjugal?
Mais uma vez, Portugal mostra como os partidos democráticos tudo podem oferecer. Haverá outro PS assim?
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