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O último capítulo do inspector Varatojo

por

João Miguel Tavares  

Tivesse podido escolher, e certamente transformaria a sua própria morte num mistério impenetrável, só ao alcance dos melhores detectives - Artur Francisco Varatojo, que marcou gerações de leitores, espectadores e ouvintes através do seu alter-ego "Inspector Varatojo", morreu no sábado. Tinha 80 anos.

O fascínio pela criminologia trouxe-lhe uma enorme popularidade, que ele espalhou por livros (mais de uma vintena), artigos de jornal (mais de um milhar), e ainda vários programas de rádio (esteve 25 anos na Emissora Nacional) e de televisão (apresentou O ABC do Crime ou Selecção Policial). Contudo, o seu fascínio por tal matéria - que ele alimentava com a pose de detective e o cachimbo ao canto da boca - nunca passou da teoria à prática. De facto, "inspector" foi-o apenas em sonhos e no papel, nunca na vida real.

Aliás, nunca o quis ser. Disse-o numa entrevista ao Correio da Manhã: "Nunca me interessou ter uma actividade profissional na área da investigação, do tipo detective... Era capaz de fazer uma investigação dentro da teoria, mas a partir do momento que sentisse o delinquente já a estrebuchar nas mãos da polícia eu começava a ter pena dele... Fui sempre assim, o aspecto humano tramou-me sempre."

Na verdade, o mesmo homem que mergulhava nos livros de Agatha Christie e vivia fascinado pelo mistério de Jack, o Estripador (a quem dedicou um dos seus livros) passou 30 anos da sua vida ligado à Congregação de São Vicente de Paula e a visitar semanalmente os presos da Penitenciária de Lisboa. Talvez por isso, quando se dedicou à advocacia - licenciou-se em Economia aos 25 anos e em Direito aos 50 -, quis ser sempre advogado de defesa e nunca de acusação.

Dizia também que após a Economia aos 25 e o Direito aos 50 haveria de se licenciar em Psicologia aos 75. Não chegou a cumprir esse desejo. Mas foi advogado de barra - embora sobretudo no domínio cível -, como nos filmes a preto-e-branco de Perry Mason, que o "influenciaram decisivamente".

Aquele a quem chegaram a chamar o "Sherlock Holmes português" dizia dever boa parte dos seus instintos policiais a uma velha bibliotecária da sua infância, com rigor inquebrantável de funcionária pública: a biblioteca onde o jovem Varatojo passava as suas tardes fechava religiosamente às cinco da tarde, faltassem vinte capítulos ou apenas uma página para o final do livro. Das cinco da tarde até às nove da manhã, ele tinha muito tempo para inventar crimes e desvendar criminosos - e assim continuou a fazer, pela vida fora.

O corpo de Artur Varatojo encontra-se em câmara ardente na Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, Lisboa, onde hoje será celebrada missa pelas 15 horas. O funeral segue depois para o Cemitério dos Prazeres.


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