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Palavras sobre tortura comprometem Cheney

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Abel Coelho de Morais  

Declarações do vice-presidente americano, Dick Cheney, sobre o recurso à tortura, forçaram ontem o Presidente George W. Bush a negar categoricamente que os Estados Unidos torturam os seus presos suspeitos de terrorismo.

"O nosso país não pratica a tortura e não praticará a tortura, apenas interrogamos os presos feitos no campo de batalha para percebermos se têm ou não alguma informação relevante para proteger" os EUA, declarou George W. Bush a um grupo de jornalistas no final de um encontro com o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, em Washington.

As palavras do Presidente americano pretendiam colocar um ponto final na celeuma criada por declarações de Dick Cheney quinta-feira a um programa de rádio. Quando lhe perguntaram se estava de acordo em "colocar a cabeça de um terrorista debaixo de água, se isso ajudar a salvar a vida de americanos", Cheney afirmou primeiro que isso, para ele, "não é um problema", acrescentando depois que os EUA "não praticam a tortura".

As palavras do vice-presidente americano atraíram sobre si uma barragem de críticas, com as organizações de direitos humanos a classificarem a declaração de Cheney como o reconhecimento explícito de que a Administração Bush aceita o recurso à tortura para obter informações de indivíduos suspeitos de terrorismo.

Confrontada com eleições a 7 de Novembro, em que os republicanos se arriscam a sofrer sérios reveses, a Casa Branca tentou restringir o significado das palavras de Cheney. O porta-voz Tony Scott afirmou que o vice-presidente se referia, "em termos gerais", a formas de "ajudar a salvar a vida de americanos, e não estava a mencionar nenhum método de tortura específico".

Os candidatos democratas, que têm intensificado as críticas à condução da guerra no Iraque e à estratégia antiterrorista da Administração Bush, aproveitaram para ridicularizar o Presidente e o seu número dois. John Kerry, candidato presidencial democrata derrotado em 2004 e agora candidato ao Senado, ironizou se as palavras de Cheney significavam que " a Casa Branca é a favor da tortura antes de ser contra e volta depois a ser a favor?".

Para organizações como a Amnistia Internacional (AI) e o Human Rights Watch, esta Administração trouxe para o patamar mais baixo dos últimos anos a questão dos direitos humanos nos EUA, sendo "inadmissível que um vice-presidente faça a apologia da tortura", afirmou o responsável da AI naquele país.

Legislação recentemente aprovada veio enquadrar as detenções e os interrogatórios secretos, que prosseguem; pouco depois, em Outubro, foi aprovado um novo manual das forças armadas americanas a interditar a tortura e o tratamento desumano de prisioneiros.


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