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Leonor Figueiredo
As 25 mil peças, algumas do século XIX, que mostram testemunhos da arte popular portuguesa vão sair de Belém. Na verdade, o Museu de Arte Popular será despejado e as peças distribuídas por vários museus do País. "Não faz sentido que aquele museu esteja hoje ali", revelou, ao DN, a ministra da Cultura, considerando que a estrutura "foi sendo desactivada ao longo do tempo, perdendo a dinâmica e o pessoal".
No seu lugar, como já foi anunciado, ficará o futuro Museu da Língua Portuguesa. Mas há quem não se conforme com a substituição, tendo decidido promover um abaixo-assinado na Internet, intitulado "Um acto de barbárie", que em menos de 24 horas já tinha angariado cerca de cem assinaturas.
"Promovemos a petição na base da pura cidadania", explica, ao DN, um dos seus promotores, Rui Santos, na defesa de que museu e edifício "são obras raras para se compreender o Estado Novo" e dão a conhecer "uma outra visão" do País.
A crítica que faz Pedro Sena-Lino, outro promotor do documento contra o encerramento do museu, alerta para a "desatenção que representa face à arte popular" porque alberga "uma colecção única de arte popular das várias regiões e uma das mais inestimáveis", de onde saíram boa parte das peças para a exposição em Jakarta, que a Fundação Gulbenkian realizou em finais dos anos 90 e, mais recentemente no Brasil.
Os anos 40
O edifício onde está instalado o Museu de Arte Popular é o único pavilhão que sobreviveu da Exposição do Mundo Português de 1940. Da autoria de Veloso Reis Camelo e João Simões, o edifício foi projectado pelo arquitecto Jorge Segurado, tendo o museu sido inaugurado em 1948.
Para a concretização do museu trabalharam vários artistas, como Tomás de Melo (Tom), Estrela Faria, Manuel Lapa, Eduardo Anahory, Carlos Botelho e Paulo Ferreira, tendo concebido pinturas murais temáticas das várias regiões representadas no espólio.
O futuro destes murais, segundo disse ao DN o presidente do Instituto Português de Museus, Manuel Oleiro, não está em causa. "Os murais vão continuar, depois de restaurados, mas não é uma evidência que fiquem futuramente sempre visíveis ao público."
Quanto ao destino a dar ao espólio, Manuel Oleiro argumenta não constituir uma questão "muito urgente", mas considera que poderá "ser afecto a vários museus ou um apenas, durante 2007".
Madalena Ferrajota, conservadora deste museu que há mais de seis anos está encerrado ao público, explica ao DN que o espólio inicial "era constituído por dez mil peças, mas posteriormente houve muitas doações e objectos recolhidos pelo etnólogo da época Sebastião Pessanha e, que após a sua morte, em 1956, foram adquiridos pelo próprio museu".
A conservadora recorda que a estrutura do museu forma um todo, "desde o edifício ao espaço, ao 'design' de equipamento, à decoração com os murais".
Do espólio constituído por cestaria, bordados, cerâmica, alfaias agrícolas e instrumentos musicais, Madalena Ferrajota salienta haver "património em peças utilitárias e decorativas que deixou de existir".
4,1 milhões em obras
Os custos de requalificação do edifício - uma construção frágil, como demonstrou ao longo dos anos -, terão orçado os 2,2 milhões de euros (recebidos da União Europeia) e 1,9 milhões por parte do Estado.
"Não haverá perda de investimento com a instalação ali do novo museu, porque as obras só se referem ao edifício", justifica Manuel Oleiro, que também não parece preocupado com o que dizia em 1944 o "auto de entrega" do edifício, ao mencionar que o espaço se destinava só ao museu. "Houve uma cedência de condições com o Estado, mas parece-me pacífico, porque o edifício destina-se a um outro museu e, portanto, nada será desvirtuado."
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