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opiniao

Por favor, discutam comigo

por

João Miguel Tavares

jmtavares@dn.pt  

Eu queria discutir o aborto, mas o que eu queria discutir ninguém quer discutir comigo. É que a metafísica, essa, enterrei-a no referendo de 1998. E fiz uma jura: ninguém me apanha mais a debater o momento em que a vida começa, as piruetas da fecundação, a gravidade da nidação ou a milagrosa formação do sistema nervoso central. Após a gritaria de 98 fiquei para sempre surdo a qualquer tentativa de encontrar respostas científicas para problemas filosóficos. Tornei-me um pragmático: eu tenho cá a minha opinião, gosto muito dela, mas não quero convencer sequer uma mosca da razoabilidade dos meus argumentos. Significa isto que vou votar a favor do aborto até às dez semanas? A resposta deveria ser "sim". Mas, se calhar, vai ser "não".

É que entretanto já foi metido ao barulho, como se fosse um detalhe do domínio da evidência, aquilo que efectivamente me irrita a pituitária e que merecia umas boas doses de conversa: a possibilidade de realizar abortos a pedido em hospitais públicos. O ministro Correia de Campos, sempre solícito, já afirmou que o Sistema Nacional de Saúde está mais do que capacitado para realizar os abortos necessários. Acredito piamente. Só lamento que esteja tão capacitado para realizar abortos e tão pouco capacitado para curar uma simples dor de dentes ou para so- lucionar tantos casos de doentes com cancro que têm de esperar quatro ou cinco meses por uma operação porque não existe vaga para cirurgia.

Isto não é o acessório - isto é o essencial. Estar grávido não é uma doença. E só em casos excepcionais, aliás já previstos na lei em vigor, é que pode ser considerado um problema de saúde. E não o sendo, e havendo centenas de milhares de pessoas que estão efectivamente doentes sem terem da parte dos hospitais públicos a resposta que lhes é devida, é uma obscenidade ocupar salas de cirurgia e tempo médico com interrupções da gravidez. À pergunta do referendo eu votaria "sim". Mas se envolverem equipamentos do Estado no processo a minha resposta será, inevitavelmente, "não".


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