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artes

"O poeta é como o místico tende para o silêncio"

por

Ana Marques Gastão  

Pedro Tamen

Poeta

Nasceu em Lisboa em 1934

Licenciado em Direito (Universidade de Lisboa), dirigiu a Editora Moraes e depois, até 2000, foi administrador da Fundação Calouste Gulbenkian

Presidiu ao P.E.N. Clube Português

Novo livro de Pedro Tamen, Analogia e Dedos, editado pela Oceanos, celebra os 50 anos de actividade literária de um autor que se estreou com Poema para Todos os Dias, em 1956. A efeméride é assinalada hoje, às 18.30, na Casa Fernando Pessoa, com a apresentação da obra por Carla Braga. Na ocasião, inaugurar-se-á, ainda, uma exposição biobibliográfica, patente até dia 9 de Novembro. A mostra inclui livros, fotos, críticas literárias e duas esculturas. António Lobo Antunes, Maria Velho da Costa, Maria do Rosário Pedreira, entre outros, lerão poemas do homenageado.

Celebra os 50 anos de actividade literária com um livro entre o melancólico e o irónico. Analogia e Dedos encerra uma ironia talvez empírica, talvez teórica, mas sobretudo poética. Eirôn, no sentido etimológico, significa "aquele que interroga, pergunta, pergunta a si mesmo." É isto que continua a fazer?

É exactamente isso que continuo a fazer. Melancólicos, já claramente o eram os meus últimos livros, em especial os dois últimos. Mas irónicos, acho agora, à distância, que todos o foram. E num duplo sentido: nesse etimológico que cita, que tem que ver com a auto-interrogação, e no de escudo protector (ou abrigo) de verdades escondidas.

A analogia receia entregar-se à espirituosidade, desfazendo-se assim em coisa nenhuma, e também em recobrir-se de trapos e imagens... O caso análogo, como escreve Goethe, não quer demonstrar nada. Neste livro, confronta-se com o Outro de si mesmo? Ou melhor, as analogias são consigo próprio, tendo em conta a ficção que a escrita também é?

Ah, sem dúvida, as analogias são comigo próprio. Aliás, nunca ninguém pode descrever um qualquer outro a não ser tendo por referência o retrato que de si mesmo faz, consciente ou inconscientemente.

O seu livro é de carácter indagativo, não pretendendo chegar a um nada último?

Há muito, muito tempo que os meus livros, e aquilo que contêm, deixaram de pretender chegar a qualquer espécie de "último". No início queriam arrogantemente chegar a um "tudo" último- mas a respiração foi-se tornando cada vez mais interrogativa - isso, indagativa - e cada vez mais hesitante.

Os Dedos que acrescenta ao título são, de algum modo, a impressão digital, a marca autobiográfica velada, o inverso do visível?

São isso, mas confesso que não apenas isso. Os dedos são, pretendem ser aqui a marca do artesão, da habilidade, do "jeitinho" com que me escapo (como uma vez disse) "habilidoso e rente". Para além, é claro, do jogo (um pouco grosseiro, admito) com a dicotomia analógico/digital.

A escrita aproveita, não ao escritor, mas àquilo que este quer dizer, como refere Walter Benjamin?

Com toda a franqueza, acho que não aproveita a ninguém, a não ser, eventualmente, a um qualquer maduro que nela veja o que lhe possa aproveitar...

Se há algo de lúdico no manusear dos dedos, na oficina poética, está patente na sua obra a ideia de que nada se alcança em plenitude?

Esse lado lúdico, o "jogo" de que tantas vezes fui acusado, não é inocente; nunca o foi e menos ainda o é neste livro. Pelo contrário, exprime, ou pretende exprimir, a impotência radical que nos impede de alcançar qualquer espécie de plenitude.

Em Analogia e Dedos, o sujeito poético está entre as penas de Simão Botelho, os 125 anos de Moisés - metáfora da passagem inexorável do tempo -, a certeza de não valer a pena de Noé e a viagem da pequena casa de Neffertiti? Somos um jogo de espelhos?

A isso que diz só me apetece responder com frases assertivas do género: isso mesmo, é tal e qual, nem mais nem menos...

O "sumo de verdades" que nos forma também nos escapa?

O "sumo de verdades" (expressão de uma "arte poética" que escrevi há uns bons anos) é o resultado, provavelmente aguado, que se escapa das pobres palavras que ponho e posponho como "coisas feitas": de toda a "conversa fiada" do nosso quotidiano desgastado e desgastante.

Reúne, neste seu livro, figuras da sua vida? Porquê estas e não outras?

São figuras da minha vida no sentido em que neste ou naquele momento todas me tocaram, ainda que por vezes por lados ou sob aspectos que não são aqueles por que os vejo nos presentes "retratos". E, uma vez que estava a "montar a galeria", a maior parte delas impôs-se-me desde logo, embora para outras tenha tido que acender investigadoras lanternas para esquadrinhar os recantos onde se acoitavam.

A sua desforra são as palavras? "Sem gosto" e "sem gasto", acorrentado a um passado e ao que virá e não sabe se quer?

É-me difícil dizer o que são as palavras no poema que escrevo. É certo que com elas me desforro (não sei bem de quê), mas também com elas desferro (em direcção a que porto?), com elas desfiro (sei lá que projécteis), com elas desfio, desfibro, desfiguro... Por aí fora.

O poema Romeu retoma o tema do amor, sempre presente na sua obra poética, e Lázaro, o do apelo religioso, que o marcou e de que, num certo sentido, se desligou sem que o apaziguamento se instalasse, porém. Que poção é a de agora para as "fatais ardências"?

Não há poção. Justamente por isso mesmo, o apaziguamento não se instalou.

Em Analogia e Dedos, o amor está ligado por um fio à história como no caso do poema Inês de Castro, mas não só? Muitas referências literárias também nestes poemas...

Muitas, muitas. E em quase todas elas o amor é o fio que conduz, ou seduz, ou reduz... Mas em diversos tipos ou encarnações.

Nesse sentido, a chama não é o fogo, mas um corpo misto. Este pode dizer-se um livro da criatividade da sombra e da sua reconversão?

Neste livro tudo arde discretamente, sem fogo mais ou menos fátuo. Direi não tanto que reconverte, mas que revaloriza a sombra.

O erotismo verbal-visual sempre passou pela sua poesia, bem como a interrogação metafísica, cada vez mais sarcástica, e o virtuosismo. Esse não "ter mais palavra" de que fala o "seu" Moisés é uma inquietação do poeta?

Sem dúvida nenhuma. O poeta, exactamente como o místico, tende para o silêncio.

Rilke e Pasternak partilharam a ideia de que o único verdadeiro poeta seria Orfeu. Proust diz que é aquele que nos diz: "Observa, observa!" Ser poeta é não ter a certeza?

Não basta não ter a certeza. Não basta não olhar para trás, tal como não basta olhar para a frente (observar). O problema não está aí. O "único verdadeiro poeta" é o que desdiz ao dizer, ou então o contrário.


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