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economia

A paz e o dinheiro

por

António Perez Metelo

Redactor principal  

A propósito do Prémio Nobel da Paz, concedido este ano a Muhammad Yunus e ao Grameen Bank (Banco Rural), por ele fundado há 30 anos, ouvi o depoimento de João César das Neves, que enaltecia o prémio como reconhecimento de que a banca, contrariamente à opinião muito em voga, é um instrumento da promoção da paz entre os homens. Discordo desta interpretação. Este Banco Rural não pode ser posto ao mesmo nível da banca comercial do Bangladesh, onde nasceu, ou de qualquer parte do mundo. A ideia fundadora do microcrédito surge da observação de uma realidade insuportável: mulheres artesãs de peças de bambu, nas aldeias em Chittagong, não conseguiam gerar rendimento suficiente para alimentar-se a si e aos filhos, mesmo quando tinham assegurada a venda dos seus produtos. Não dispunham de um fundo de maneio próprio e todo o excedente económico esvaía-se nos juros predadores dos agiotas locais, que avançavam o dinheiro para a compra da matéria- -prima. Escassas dezenas de dólares chegaram para arrancar essas 40 mulheres do ciclo infernal dos parasitas argentários. Mas estes só existem porque a banca comercial não empresta dinheiro a quem não tem bens colaterais para oferecer como garantia! Nesse sentido, ao confiar na palavra, sobretudo, das mulheres mais pobres do seu país, Yunus criou o antibanco. Quem depende dos próximos 100 dólares para novo ciclo produtivo do seu micronegócio sabe que não se pode dar ao luxo de falhar um pagamento. E, pasme-se!, a taxa de incumprimento dos paupérrimos não é superior à dos endinheirados. A diferença está em quem empresta: não promove as ilusões de que se pode ter uma vida extraordinária de multimilionário ao aceder a determinado cartão de crédito ou de que se é "dono" de um banco ou de uma grande empresa por comprar uma centena de acções em oferta pública. O esforço tenaz de autonomização e construção de uma vida digna, para mais de 100 milhões de famílias pelo mundo fora, resulta de uma ideia heterodoxa de homens de boa vontade, construtores da paz.


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