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economia

Emprego só com empreendedorismo

por

Soumodip Sarkar

Professor associado, Departamento de Gestão, Universidade de Évora  

Há uma fábula budista em que cinco cegos tocam num elefante. Cada um toca numa parte do elefante e diz que são coisas diferentes: uma corda, uma árvore, uma parede.... Tudo dependendo da parte do elefante em que tocavam. Por vezes é o que acontece com os diagnósticos dos problemas do País...

Empreendedorismo, inovação, clusters são palavras da moda. Corre-se o risco de passarem a clichés sem ter impacto no problema fundamental: a competitividade e o crescimento. A razão está em usarmos e aplicarmos mal as palavras, e não nos conceitos em si!

Afinal o que é e para que serve o empreendedorismo? O conceito de empreendedorismo existe há bastante tempo e tem sido utilizado sob diferentes significados. Contudo, a sua popularidade renasceu nos últimos tempos, como se tivesse sido uma "descoberta súbita" e viesse definitivamente alterar a economia. Mas será que todos sabemos para que serve? Há uma coisa fundamental: o empreendedorismo, relacionado com criação de empresas, terá de ter a ver com empresas de inovação. Se pensamos em lojas como empreendedorismo, corremos o risco grave de cair na definição de empreendedorismo só como sendo auto-emprego - o engraxador de sapatos é um empreendedor?

De acordo com o INE, a taxa de desemprego em Portugal, no segundo trimestre de 2006, situa-se nos 7,3%. Uma análise comparativa com os restantes países da UE dá-nos uma visão optimista, no que concerne a este indicador - a França, por exemplo, tem uma taxa de desemprego de 8,8%. Mas, como a saia de uma mulher bonita, a taxa de desemprego esconde mais do que revela.

Apesar de o nível de desemprego em Portugal ser baixo em relação a outros países da UE, há um conjunto de fragilidades estruturais no sistema de emprego que tem de ser resolvido. E uma delas é a falta de empreendedorismo. No outro dia li que há 40 mil diplomados sem emprego. E os que têm emprego estão a ganhar pouco, devido ao excesso de oferta de diplomados, pelo menos em algumas áreas. Mas, sem crescimento económico significativo, onde vamos arranjar empregos para todos? Uma das soluções é a promoção do espírito de empreendedorismo e inovação.

Uma análise recente mostra ser preciso um crescimento anual de 3,7% ao ano para atingirmos o nível da UE a 15 países, em 20 anos (com a UE a crescer à taxa de 1,6%, a média anual de crescimento dos últimos cinco anos). Em termos de empreendedorismo, fiz o cálculo inverso. Cheguei à conclusão de que isso implica a criação de cerca de 115 mil empresas por ano, durante 20 anos!

Certa vez divulguei através do núcleo de estudantes um anúncio que dizia: "Professor quer falar com um aluno que queira ser empreendedor, tenho uma bolsa." Não obtive qualquer resposta. Como não tive resultados mudei de táctica e então coloquei outro anúncio a dizer "Professor precisa de um aluno para trabalhar em part-time" e em três dias recebi 15 currículos...


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