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Diz-me como te chamas, dir-te-ei quem queriam que fosses

por

Céu Neves  

Nomear é, desde logo, reivindicar- fazer exigências à pessoa. E as razões que levam à escolha de um nome em famílias da elite lisboeta, por exemplo, tentarão ser reconstituídas em apenas um dos 22 projectos de investigação discutidos no Simpósio Internacional de Nomes e Pessoas, que hoje começa no Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa

"Teresa ou Constança, José ou Sebastião. Intencionalidade, afecto e distinção nas escolhas de nomes em famílias de elite de Lisboa", é o título da comunicação de Antónia Pedroso de Lima, uma das participantes no simpósio internacional "Nomes e pessoas: género, classe e etnicidade na complexidade identitária". O objectivo do encontro é estudar as pessoas e as suas práticas sociais através da nomeação que lhes é atribuída à nascença. E perceber se há alguma coerência nas práticas dos países onde se fala o português "devido à partilha de algum background histórico, mais do que linguístico".

Antónia Pedroso de Lima investigou os nomes de famílias de elite de Lisboa e que tinham empresas familiares há pelo menos três gerações, um trabalho que apresentou na tese de doutoramento em antropologia. Encontrou uma "herança" na designação dos filhos tão ou mais importante do que a transmissão de bens.

"É um património simbólico. Fazem parte do património da família, tal como as coisas, os apelidos, o brasão. É uma tentativa de promover alguma identificação e intersubjectividade entre os membros da família", explica a professora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).

Naquelas famílias, começa por se escolher o nome do bebé para homenagear um antepassado, que assim é transmitido às gerações futuras; passa de pais para filhos. Seja rapaz ou rapariga, este recebe o nome do pai, da mãe; do tio ou tia; do padrinho ou madrinha. Às vezes brincam e misturam os nomes masculinos com os femininos, por exemplo José Maria ou Maria Manuel; ou conjuga-se a tradição com outras designações menos usuais, como Maria do Mar ou Íris. O leque de designações é razoavelmente reduzido. "Acabam por se transformar em tradição e as gerações seguintes acabam por obrigar-se a dar uma continuidade a esta tradição", diz Antónia Pedroso Lima.

Estas famílias são, cada vez mais, copiadas, o que explica a recuperação de nomes mais antigos, como as Constanças, Teresas, Carolinas, Marias, Carlotas, Madalenas, Joãos, Josés, Bernardos. O processo é o mesmo que leva à compra de um móvel num antiquário para se dizer depois que foi herdado da avó. "Esses nomes antigos sempre existiram nas famílias de elite, mas actualmente as pessoas estão a recuperar o que é tradicional. Acabaram por criar uma moda. Na sociedade portuguesa há a ideia de que a tradição confere mérito e prestígio à modernidade. É a ideia de que o antigo pode ser usado e forma moderna. Daí o peso dos nomes tradicionais".


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