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A revolução digital que está a mudar o mundo

por

Nuno Galopim

Paulo Spranger (foto)  

Música vendida (ou oferecida) directamente do criador ao consumidor, sem editora envolvida? Um canal de televisão inventado e gerido por nós mesmos? Ver o último episódio do Perdidos na carruagem de Metro, a caminho do emprego, na manhã seguinte? Escutar o programa de rádio que se não pode acompanhar em directo, dois dias depois, mesmo fora do alcance do emissor? Comprar filmes directamente para o computador, por download? Estes e muitos outros sonhos de outrora são realidade. Uma realidade disponível a cada um, para tal bastando uma ligação de banda larga à Internet.

Passaram apenas 11 anos desde que, a 9 de Agosto de 1995, o Netscape passou do segredo de redes internas de ensaios para o domínio comum. Milhões estão hoje ligados em casa, os cibercafés, outrora acessos possíveis para muitos, quase apagados dos mapas. Pela rua vendem-se pacotes de acesso de banda larga. A publicidade anuncia ligações mais rápidas, mais potentes, mais baratas. A revolução está a acontecer debaixo dos nossos olhos, sobre o teclado de um computador. E ninguém terá de ficar excluído.

Em finais dos anos 90, uma maré de falências e desaires financeiros deitou por terra pioneiros e visionários que, com razão, mas antes de tempo (e sem as ferramentas necessárias), sonharam com um futuro online. Um futuro certo em diversas actividades económicas e, também, nas esferas do entretenimento, certo que parecia desde a alvorada de 90, um futuro para a distribuição de música, filmes e jogos através da Internet.

A generalização dos acessos de banda larga e a possibilidade real de mais operações em menos tempo foi o gatilho que faltava, instante zero de uma realidade que desencadeou a actual revolução à qual muitos chamam já Web 2.0, um upgrade de possibilidades imensas.

Serviços já populares como o Google ou o Yahoo ganharam nova dinâmica ao juntar o som e imagem aos seus conteúdos. A Wikipédia virou a nova enciclopédia de referência. O novo jornalismo musical tem por referência um site (Pitchfork) e não mais uma publicação em papel. Mas os fenómenos maiores, com expansão global e crescimento exponencial nos últimos dois anos, nasceram já sob a nova ordem audiovisual, cativando milhões de utilizadores pelo som e pelo vídeo, forne- cendo alternativas estimulantes a programações de rádio anestesiadas e a canais de televisão onde a velha ordem ainda faz a lei. O sucesso de um serviço como o MySpace (propriedade da News Corp de Rupert Murdoch) rapidamente ganhou a pole position das atenções de quem gosta de música. Cem milhões de utilizadores inscritos, cada qual com a sua página, entre as quais três milhões correspondem a bandas e músicos. A recente notícia que dá como certa a hipótese de venda de música através do site, sem necessidade de contrato com qualquer editora, vai mudar o mapa-mundo da indústria discográfica. Mais ainda que a transformação do Napster de plataforma de pirataria peertopeer em loja legal ou mesmo o sucesso mundial do serviço de vendas da Apple, mais conhecido como iTunes.

Disputando com o MySpace o lugar cimeiro da paixão dos cibernautas, o YouTube é outro dos fenómenos nascidos desta segunda revolução online. Ali moram telediscos, home videos, trailers, pedaços de programas de televisão. Coisas sérias e disparates, acessíveis no site, em canais construídos pelos utilizadores ou através de milhões de blogues, aqui através de ferramentas cuja manipulação não exige mais que um clique. A Warner Music já assinou com o YouTube um acordo que ali colocará todo o seu catálogo.

A Universal, contudo, promete um processo judicial por questões de direitos de autor, ao mesmo tempo que define, como a EMI, um acordo com o serviço SpiralFrog, que promete oferecer música a troco de publicidade visionada.

A Amazon já vende filmes e programas de TV por download. A Apple também. Os novos leitores de música digital são pequenos televisores portáteis. Desta vez, a revolução não vai parar!


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