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por
Filomena Naves
Os cristãos, para quem o baptismo é um acto simbólico essencial, usam a expressão "lavar os pecados". Muçulmanos e hindus fazem abluções obrigatórias antes das preces e através delas atingem a purificação espiritual necessária às orações. Mas, do ponto de vista da psicologia, como se materializa esta associação entre pureza corporal e moral, que as religiões praticam, afinal, há milénios? Ou, de forma provocatória, será que Pilatos aliviou mesmo a sua consciência quando lavou as mãos do destino de Jesus?
Um grupo de psicólogos, liderados por Chen-Bo Zhong, da Universidade de Toronto, no Canadá, decidiu olhar para a questão e, depois de algumas experiências, garante que a associação psicológica entre pureza corporal e moral é real e pode ser medida. Chamaram-lhe o "efeito Macbeth", numa vénia a William Shakespeare, e o seu estudo foi publicado na última edição da Science.
Na sua famosa tragédia com o mesmo título, o dramaturgo inglês quinhentista mergulha na questão quando Lady Macbeth manipula o marido para assassinar o rei da Escócia e refere que "um pouco de água limpará esta acção". No entanto, ela acabará a gritar "fora, maldita mancha, fora" quando, sonâmbula, vê uma mancha de sangue que não consegue limpar.
Para determinar de que forma as pessoas associam mentalmente os estados de limpeza corporal e a correcção ética ou moral, e até que ponto cada uma destas duas dimensões influencia ou se repercute na outra, a equipa fez três experiências diferentes, recorrendo a 60 voluntários, divididos em grupos de experimentação e de controlo.
Num dos testes, para tentar perceber se uma ameaça de natureza ética activa a necessidade de limpeza do corpo, ou de algumas partes do corpo, como as mãos, os investigadores pediam a um grupo que copiasse uma história escrita na primeira pessoa, na qual o narrador tinha uma conduta moralmente incorrecta para com um colaborador. O outro grupo copiava uma história neutra, do ponto de vista moral.
Depois era pedido a todos que escolhessem entre produtos variados (que incluíam objectos avulsos, como blocos-notas, pilhas ou chocolates e produtos de limpeza diversos). O resultado mostrou que o grupo que copiou a história com o comportamento ético censurável demonstrou uma apetência significativamente superior à do outro pelos produtos de limpeza.
Noutra experiência, era pedido a um grupo que recordasse uma situação em que, na sua opinião, tivessem agido mal do ponto de vista moral e a outro que fizesse uma boa acção, como entregar uma carteira perdida. Depois era-lhes dada a escolha entre uma lapiseira e uma toalha de limpeza e mais de metade do primeiro grupo escolhia a toalha.
Estabelecida esta associação, os psicólogos procuraram dar resposta a outra pergunta: pode uma lavagem corporal transmitir a sensação de purificação mental?
Outra experiência avaliou a adesão a um trabalho voluntário, após uma acção negativa. A adesão foi maior por parte dos que não tiveram hipótese de lavar as mãos, dando assim resposta positiva à questão, garantem os investigadores. Ou seja, "uma ameaça à pureza moral activa a necessidade de limpeza física, e esta tem um efeito emocionalmente calmante, reduzindo a necessidade de comportamentos compensatórios". Este estudo, garantem os psicólogos, abre novos caminhos à pesquisa sobre os mecanismos que determinam as decisões éticas.
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