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por
Fernanda Câncio
"O papa é um ser humano, e como tal pode errar. E se errar pode e deve pedir desculpa." Para Carlos Azevedo, bispo e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, a questão abstracta sobre um hipotético erro papal tem resposta automática. Já o exemplo de uma situação em que um papa tenha efectivamente pedido desculpa por um erro por si cometido não lhe vem à memória. "Não lhe sei dizer um caso concreto em que tenha ocorrido isso."
A mesma impossibilidade surge à teóloga Teresa Toldy. "Houve um pedido de desculpa pelos erros cometidos ao longo da história da Igreja Católica, por parte de João Paulo II", lembra. "Mas não tenho memória de um papa que se retractasse por um erro pessoal. O que não quer dizer que não tenha acontecido." Até porque, frisa Toldy, não se deve confundir o dogma da infalibilidade do papa, estabelecido em 1870 no Concílio Vaticano I, e motivo de muita polémica no seio da confissão, com a ideia da infalibilidade da pessoa em si. "O papa não é infalível; as afirmações dogmáticas do papa é que são infalíveis."
Não é infalível, mas não erra
De acordo com a doutrina oficial da Igreja católica, o dogma da infalibilidade do sumo pontífice (que como todos os dogmas é "inquestionável", tendo dado já origem a excomunhões por dissidência) só se aplica quando este fala ex-cathedra, ou seja, quando anuncia que vai proclamar um dogma. Por outras palavras, o papa só é infalível quando diz que vai ser infalível. Mas a que ponto é possível aos crentes distinguir entre a infalibilidade anunciada, que existe por emanação divina e consubstancia o dogma, e a ideia de uma infalibilidade imanente à pessoa do papa, que é visto como o representante de Jesus Cristo na Terra? Será que a ideia de infalibilidade pontual, ou por acessos, é compaginável com a noção de um ser humano que erra e pede desculpa?
Facto é que nenhum dos especialistas contactados pelo DN logra recordar um pedido de desculpas pessoais protagonizado por um chefe da Igreja Católica. Mas Saturino Gomes, director do Centro de Estudos de Direito Canónico da Universidade Católica Portuguesa, recusa que tal resulte de uma "contaminação" da figura do papa pelo dogma da infalibilidade, antes se devendo a um especial cuidado nas afirmações e posicionamentos. "Geralmente as afirmações do papa e as atitudes dele são muito cautelosas. Portanto é normal que ele não diga alguma coisa pela qual tenha de se vir a retractar." Uma explicação subscrita pelo bispo Carlos Azevedo: "Quando o papa se pronuncia sobre qualquer assunto pondera bem o que vai dizer. Portanto é normal que ele não diga alguma coisa pela qual tenha de se vir a desculpar"
Segundo esta perspectiva, então, o papa não seria infalível, limitar-se-ia a nunca cometer erros. Uma ideia com a qual Maria João Sande Lemos, do Movimento Nós Somos Igreja, não pode estar de acordo. "Toda a gente sabe que os papas erram e se enganam. Não são Deus, podem enganar-se e cometer erros." Exemplo disso é, para esta católica crítica da hierarquia, o papa João Paulo II. "Ele pediu desculpa pelos erros dos seus antecessores mas não pelos seus. E cometeu muitos, do meu ponto de vista."
Frisando que, no que diz respeito às afirmações de Bento XVI, não vê qualquer motivo para um pedido de desculpas ("foi talvez imprudente, mas não me faz sentido nenhum que o queiram obrigar a pedir desculpa, tenho a certeza de que não quis ofender nem levantar esta celeuma"), Sande Lemos considera que um pedido de desculpas de um papa só o acrescentaria aos seus olhos, exaltando-lhe a humanidade e a humildade cristã. "Do ponto de vista da doutrina católica, o reconhecimento e assunção da culpa é um dos actos importantes. Para mim, um pontífice não ficaria diminuído por isso, antes pelo contrário."
Racional mas pouco razoável
Numa discussão que está ela própria contaminada pela situação que a desencadeou, difícil não ver a ideia de um pedido de desculpas papal à exclusiva luz da alocução universitária de Bento XVI e das reacções do chamado "mundo muçulmano" que se lhe seguiram. "Uma pessoa só pode pedir desculpa se fizer alguma coisa de mal, e o papa não fez nada de errado", adverte o porta-voz da Conferência Episcopal. "Quem deve pedir desculpa é a comunicação social, que descontextualizou uma citação. Só a má fé pode levar à interpretação que foi feita ."
Para quem leu a integralidade do texto "Fé, razão e a Universidade: memórias e reflexões", porém, como Teresa Toldy, não é evidente que o papa não tenha errado. "Ele devia ter percebido que não estava só a dar uma aula a um grupo de académicos e que tudo o que diz tem um enorme impacto. Acho um pouco infelizes as palavras que ele usa. Trata-se de um discurso sobre a racionalidade que padece de falta de razoabilidade." Mais: a teóloga vê o esclarecimento do Vaticano "de que o papa não tinha intenção de ofender" como "um pedido de desculpas".
Afinal, como conclui o filósofo-padre Anselmo Borges, "infalível só Deus. Não sei se algum papa acredita sinceramente que é infalível. Seria interessante perguntar a Ratzinger se ele crê que Bento XVI é infalível."
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