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por
Filomena Naves
Mergulha-se uma rã numa tina de água morna e, a pouco e pouco, vai-se aquecendo o recipiente. Mas a rã, tranquila e sorridente, nem se mexe. A temperatura aumenta, ela arrisca-se a ficar cozida, mas nada. A única solução é arrancá-la de lá, enquanto é tempo.
O episódio da rã - um momento de humor em desenho animado do filme Uma Verdade Inconveniente, que hoje se estreia em Portugal - é uma metáfora para a forma como o mundo, o cidadão comum e o político comum tendem a reagir ao problema das alterações climáticas.
Uma Verdade Inconveniente, feito à imagem do livro com o mesmo título do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore (e cuja tradução portuguesa será publicada em Portugal, em Outubro, pela editora Esfera do Caos), poderá ser o abanão de que a rã precisa para saltar para fora da tina. É o que espera, pelo menos, o próprio Al Gore. Porque, diz ele, o planeta não pode esperar.
Há dez ou 15 anos, o assunto das alterações climáticas era quase um ilustre desconhecido e pouca ou nenhuma emoção despertava no cidadão da rua. Talvez um encolher de ombros, se ele já tivesse ouvido falar da questão.
Para a comunidade científica, no entanto, com a acumulação de dados preocupantes - o aumento do dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, a tendência global para a o aumento da temperatura ou o recuo do gelo nos glaciares -, tratava-se já de uma questão no topo da sua agenda de trabalho. Convencer os políticos da realidade que começava a emergir dos estudos era a outra árdua tarefa que os cientistas teriam pela frente.
A experiência frustrada de Al Gore, um político pioneiro nesta matéria, que iniciou ainda enquanto congressista campanhas de informação junto dos seus colegas no Congresso, ilustra bem essas dificuldades. A sua mensagem, conta ele, foi ignorada. De então para cá, porém, algo já mudou neste panorama. Desde logo no lado da ciência, que conseguiu estabelecer alguns factos fundamentais, hoje incontestados: as alterações climáticas são uma realidade, já estão a acontecer e têm origem na actividade humana.
Do lado da política, mesmo que insuficiente, há Quioto desde Fevereiro do ano passado. E para o cidadão comum alterações climáticas também já deixou de ser expressão abstracta. As 37 mil vítimas mortais da onda de calor de Julho de 2003, na Europa, ou a sucessão de superfuracões que nos últimos três anos fustigaram as Caraí- bas, Florida e golfo do México despertaram consciências. Mas será que o problema se arrisca a ser uma moda, para depois voltar tudo à mesma? Ou, pelo contrário, este é o momento certo para a consciencialização global do problema e o filme de Al Gore chega na altura exacta para um salto crítico no ataque ao problema? Por outras palavras, salvar-se-á a rã?
Nos EUA, onde o debate político sobre as alterações climáticas começa a emergir e as acções locais e dos Estados para a redução de emissões de CO2 se multiplicam (apesar da posição anti-Quioto da Administração Bush), Uma Verdade Inconveniente foi bem recebido e tornou-se "muito popular", disse ao DN Meredith McFadden, da NaturalResourcesDefense Council, um ONG de cientistas e juristas dos EUA para o ambiente. McFadden prevê que o filme tenha agora um efeito multiplicador nas acções de políticos, cidadãos e empresas nesta matéria.
Um dos trunfos da película "é o seu rigor científico", sublinha por seu lado Viriato Soromenho Marques, consultor científico para a tradução portuguesa do livro. E outro "é, sem dúvida, a mensagem de esperança e anticatastrofista que ele contém". Como explica Al Gore, as soluções para o problema existem, só é necessário pô-las em prática. E agora que a questão já está em filme, é bem possível que isso faça toda a diferença. Nos Estados Unidos costuma fazer.
A análise crítica do filme poderá ser lida amanhã no suplemento 6.ª.
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