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Política imberbe

por

Joana Amaral Dias

Psicóloga

genecanhoto@gmail.com  

Na passada semana, a revista Única do Expresso fazia capa com Ségolène Royal. A possível candidata à presidência francesa era apresentada como "mãe de quatro filhos" e descrita insistentemente como: "sexy", "esbelta", "com um físico de adolescente e um sorriso desarmante". As conversas de alcova entre Royal e o líder do PSF eram amplamente glosadas: "Mantêm uma relação equilibrada. É com ele que discute, frequentemente na cama, as grandes estratégias político-partidárias." Já Fabius, seu rival, questionou: "E quem vai guardar as crianças?"

No princípio do ano, quando Michelle Bachelet foi eleita Presidente do Chile, nenhum jornalista resistia a perguntar-lhe como conciliaria o cargo com as obrigações familiares, tendo em conta que é mãe solteira. Agora eleita "a mulher mais poderosa do mundo" pela Forbes, Angela Merkel foi atacada por não ter filhos. (Decidam-se!) Em 2005, a revista Visão dedicava-se, com afinco, à avaliação estética da futura primeira chancelerina, referindo-a como uma "mulher sem nada de especial". Não havia pejo algum em dedicar parte importante da reportagem a reprimendas ao seu guarda-roupa, à sua maquilhagem e a uma mancha de suor que teria exibido no Festival de Bayreuth.

Mesmo que Royal seja advogada e tenha exercido funções governamentais entre 1997 e 2002, Merkel seja doutorada em Física e tenha integrado o Governo de Helmut Kohl durante anos, Bachelet seja médica e tenha sido ministra da Defesa, o seu currículo não pode ficar por aqui. Se não são atraentes, são criticadas. Se são, são reduzidas a isso. Se não têm filhos, deveriam ter. Se têm, deviam era cuidar dos mesmos.

Independentemente das opções políticas destas mulheres, o facto de existirem enquanto protagonistas de relevo representa uma mudança substancial. Mas a forma como são ainda tratadas e retratadas diz tudo sobre o muito que ainda terá de mudar. Não existem estes comentários dirigidos a líderes políticos homens e é tão difícil - quanto cómico - imaginá-los. Quem se atreveria a classificar de "sexy" e "com físico de adolescente" Bush, Mahmud Ahmadinejad ou Marques Mendes? De "negligente com as crianças", "esbelto", "confidente de alcova" Sócrates, Durão Barroso ou Hugo Chávez? Ou de "homem sem nada de especial" e "com sorriso desarmante" Cavaco Silva, Fidel Castro ou Ben Laden? Sem ser no Inimigo Público ou no Gato Fedorento, claro.


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