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Entrevista a Mário Soares: "Não sou impressionável por um simples desaire"

por

António José Teixeira

Leonardo Negrão (foto)  

Nota: Conteúdo parcial da entrevista. Para ler versão completa há que consultar a versão em papel do Diário de Notícias

Passa os dias de Verão na casa do Vau debruçada sobre o mar algarvio. Foi aí que o DN encontrou Mário Soares na tarde de sexta-feira. Aos 81 anos diz esperar ainda tudo da vida. Pode estar pessimista sobre o imediato, mas depois olha para o mar azul que lhe cerca a porta e reconcilia-se com a vida. A batalha eleitoral já lá vai, agora continua a indagar os mistérios do universo, mas sempre com a política por perto.

Terminou o período de nojo das presidenciais?

Nojo não será a palavra adequada. Terminou o período de reserva e reflexão, depois de ter perdido as eleições. Em democracia ganha-se ou perde-se. Eu perdi. É normal. Mas o que não seria correcto era continuar a opinar como se nada se tivesse passado. Assumi a derrota com naturalidade e clareza. Depois fiquei calado. Achei que devia fazer uma pausa, de uns meses largos, para pensar. Agora estou a começar outra fase da minha vida.

Disse antes das eleições que se não ganhasse não ficaria deprimido. Como é que ficou realmente?

Não fiquei deprimido, como viu. Não foi a primeira vez que perdi eleições. Já tinha perdido legislativas em que me empenhei tanto como nestas. Não queria ser candidato. Fui pressionado de vários lados. Não só do PS. Finalmente, convenci-me. Achei que tinha esse dever. Não voltei as costas. Mas hoje apercebo-me de que os jogos já estavam feitos...

Acha que entrou tarde?

Obviamente, entrei tarde. Mas segui em frente. Fiz o máximo esforço. Foi talvez a candidatura mais dura de todas. Percorri o País duas vezes. Mas não consegui passar a mensagem. No espírito das pessoas havia uma ideia mais ou menos feita... Contudo, não gosto de ficar agarrado ao passado. A partir do dia das eleições, comecei a pensar no futuro. O passado agora será para os historiadores que eventualmente se interessem pelo assunto...

Arrependeu-se de ter tentado voltar ao lugar onde foi feliz?

A felicidade só relativamente tem a ver com a política. Sinto-me feliz. Quando entrei na campanha sabia perfeitamente que corria o risco de perder. Perdi! Mas a vida continua, como a alegria de viver...

E as suas relações pessoais e políticas ficaram prejudicadas?

Relativamente pouco. Houve coisas que não me agradaram. Outras que me deram muita satisfação. Como certas pessoas, de grande qualidade humana e profissional, que me apoiaram.

Como é que avalia o envolvimento do PS nesta batalha?

O PS fez o que pôde, nomeadamente a sua direcção. Não me queixo de ninguém. Mas o partido também se decidiu tarde.

Houve quem dissesse que o Governo não ajudou na criação de um ambiente propício...

Não tenho nenhuma razão de queixa do Governo, nem, especialmente, de José Sócrates. Bem pelo contrário! Não tinha uma relação muito próxima com ele. Adquiri-a durante o período eleitoral. Ficámos amigos. Tudo aquilo em que acordámos, Sócrates cumpriu. Sem hesitações, foi muito além do que lhe pedi.

Foi mais uma lição de vida?

Uma experiência com muitos aspectos positivos - que darão frutos no futuro - e, obviamente, altos e baixos. Tenho, como se sabe, uma vida rica: fui uma dezena de vezes preso, deportado, estive no exílio. Foram batalhas perdidas. Sou resistente, tenho uma couraça sólida. Não sou uma anémona impressionável por qualquer crítica que me façam ou por um simples desaire eleitoral...

Quando diz que o jogo estava feito, isso não acontecia com o seu partido. O PS estava hesitante...

Sócrates e as estruturas do PS manifestaram um apoio claro à minha candidatura. Foram mesmo mais longe do que se esperava. Mas há conjunturas propícias e outras que o não são.

Surpreendeu-o Manuel Alegre...

Não pensava que ele avançasse. Mas avançou. É um direito que lhe assiste.

Já ultrapassou essa situação pessoalmente?

Só o vi na posse do Conselho de Estado. Mas não houve tempo nem era o momento para conversa.

E foi só. É um capítulo encerrado?

É um capítulo encerrado, claro. Como tudo o que diz respeito às eleições presidenciais.

O facto de ter sido terceiro permite concluir que Manuel Alegre era o melhor candidato da esquerda?

Sobre isso há análises diversas. Mas não serei eu a fazê-las.

Que fez nestes meses em que não ouvimos falar de si?

Antes de ter decidido candidatar-me, tinha em mãos vários trabalhos e projectos. Cortei com tudo, como mandam as regras. Tinha um programa de televisão, escrevia em jornais portugueses e estrangeiros, tinha um livro que estava a preparar com Federico Mayor e presidia a duas fundações, entre outras coisas. Depois das eleições passei um longo período na minha casa do Vau. Nunca tinha percebido que o Algarve, no Inverno, é tão agradável. Regressei ao livro. Encontrei-me várias vezes com Federico Mayor, em Madrid e em Lisboa. Terminámos o livro, depois encarreguei-me de o estruturar e rever. A seguir veio a tradução para espanhol e português. A minha parte foi traduzida pela minha amiga Pilar del Río, mulher de José Saramago. O livro vai chamar-se Um Diálogo Ibérico no Quadro Europeu e Mundial. Será lançado pelo Círculo de Leitores em Madrid, Barcelona e Lisboa, em espanhol e português. Além disso, viajei: fui a França, ao Brasil, à Venezuela, a Marrocos...

Que anda a ler?

Tenho andado a ler muito sobre o Brasil. Li Um Império à Deriva, um livro interessantíssimo do australiano Patrick Wilcken. Aborda o período de D. João VI, quando a Corte portuguesa fugiu para o Brasil, em 1808. Li também uma História do Brasil, muito didáctica, da Companhia das Letras, e o livro de Fernando Henrique Cardoso A Arte da Política, que será lançado na Fundação Mário Soares, em Outubro próximo. Noutra temática, li também um livro difícil mas excelente de Claude Allègre, que foi ministro de Jospin e é um cientista, Dieu face à la Science. Trata das relações (nem sempre fáceis) entre a ciência e as religiões...

Um tema que o apaixona há muito...

É. Foi difícil de ler porque não tenho preparação matemática, nem em biologia, física quântica, energia nuclear e questões assim, complicadas. Demorei duas semanas, mas li-o com muita atenção e utilidade. Estou ainda a ler alguns romances e testemunhos sobre a Guerra Civil de Espanha, setenta anos depois. É outra das minhas paixões de sempre. Segui-a muito jovem, a par e passo. O meu Pai era um convicto partidário da Espanha republicana. Ouvi grandes discursos, na Rádio Madrid, de Azaña, Prieto, Largo Caballero, Passionária, figuras para mim hoje lendárias no meu imaginário. Voltei a ler L'Éspoir, de Malraux, e Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, e um livro de Stanley Pain, A Guerra Civil de Espanha, a União Soviética e o Comunismo. Li ainda Vasco Pulido Valente: PaivaCouceiro, Um Herói de Portugal. É muito interessante embora tenha aquele hábito, para mim desagradável, de não referir as fontes. Excelente também é o segundo ensaio de Pulido Valente sobre Marcelo Caetano, que foi divulgado no Público em Agosto. De primeiríssima ordem. Encheu-me as medidas.

Que impressão lhe deixa o País nesta altura?

Tenho esperança de que as coisas estejam a melhorar, ligeiramente. O Governo tem dado provas de estar em cima dos acontecimentos. Quanto aos incêndios e a tudo o mais. Decide rápido e normalmente bem. Será suficiente? Veremos o que a rentrée nos vai trazer. José Sócrates ultrapassou de longe as minhas expectativas como homem político e como governante. Tem tido uma acção que merece respeito. Quanto a mim, tem feito o trabalho possível numa situação singularmente difícil. Tem dado a sensação ao País de que governa e de que sabe o que quer. Não vejo que se pudesse ter feito mais do que fez até agora.

Mas há um clima de insatisfação.

Há um clima de insatisfação, mas tudo continua a rodar. Há gente que vive mal, é verdade. Sempre houve. O parque automóvel continua a renovar-se, bastantes pessoas continuam a passar as suas férias. Toda a gente me diz que Agosto, no Algarve, foi um mês excelente e graças aos portugueses... Não aos estrangeiros.

Foram menos para o estrangeiro...

Talvez... Mas há muitos que continuam a comprar casa no Brasil!

Ainda assim o desemprego é alto, as reformas da função pública beliscam direitos de muitos cidadãos.

As corporações que perderam benefícios contestam. É natural. Há muitos problemas por resolver. A crise não está ainda ultrapassada. Mas não se agravou, como se dizia. E há um novo clima de esperança. Vamos a ver.

Não é pouco para as expectativas levantadas pelo Governo?

Há expectativas positivas que não havia antes, mesmo do lado dos empresários. Tenho falado com muitos. Sei qual é o ambiente. É um feito, passado este tempo, o Governo ter mantido um elevado nível de popularidade.

Será mais qualidade do Governo ou défice de oposição?

Também há défice de oposição. É certo. Mas com os governos anteriores as coisas estariam muito piores. Isso é inegável.

Há quem preveja uma contestação social forte no final do ano...

É um direito dos trabalhadores. Se estão descontentes, em democracia podem exprimir o seu descontentamento.

Não será uma questão de má disposição. Há direitos prejudicados...

É certo. Mas o que tem sido feito tem justificação. Seria um desastre se o nosso modelo social fosse posto em causa, se as pessoas deixassem de receber as suas pensões de reforma e os benefícios sociais a que têm direito. Todo o esforço que está a ser feito vai no sentido de viabilizar um modelo social justo e solidário.


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